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Lendas

A menina do cavalo preto

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

“Tenho um cavalo preto / Por nome de ventania…”
(Canção de Anacleto Rosa Jr.)

PARTE 1

O sonho de Beatriz era ter um cavalo.

Não qualquer cavalo: um cavalo preto.

Naquela noite, no carteado na Casa de Dina, o pai de Beatriz jogou a última cartada depois de perder o dinheiro do mês.

-E aí, Celestino? Vai encarar ou desiste? Provocou, Tenório, o vizinho de chácara.

-Celestino pediu duas cartas. Pensou e fez a proposta de volta.

-Meu dinheiro se foi, mas jogo na mesa o meu cavalo, o melhor alazão de toda a região. E você? Sei que o teu dinheiro também acabou. Vai encarar?

Segundos de tensão feito horas.

-Pois olhe bem: o teu alazão contra o meu pingo preto, de raça.

-Pois então VENHAAA!

Celestino fechou o jogo com quadra de Az.

Ganhou o cavalo e respirou aliviado.

Na manhã seguinte, aniversário da filha Beatriz, o pai acordou a menina com o presente especial.

Beatriz não podia acreditar.

-Pai, você conseguiu o meu cavalo preto?

Os dias foram passando e a pequena Beatriz se apegando ao animal.

Certa noite, Celestino teve um sonho estranho.

Viu a sua menina caindo do “Preto” e ficando inerte no chão. Na cabeça e no sonho do pai a moda de viola como premunição:

“Tenho meu cavalo preto / Por nome de ventania ”

PARTE 2

A pesquisa mostra: Quando Portugal ainda não existia e o país fazia parte do Império Romano, os Lusitanos acreditavam que o vento do oeste fertilizava as éguas que viviam ao longo do rio Tejo e produziria todos os cavalos velozes. Então se tornou uma tradição nomear os cavalos mais rápidos de Ventania, simbolizando os animais tão ágeis que geralmente eram indomáveis. Alguns estudiosos apontaram que isso pode ser uma referência ao Livro do Apocalipse, pois na Bíblia o cavaleiro do abismo monta um cavalo preto. Há um pacto com o próprio tinhoso.

PARTE 3

Na manhã seguinte o pai acordou e foi até o estábulo.

Olhou para o cavalo preto e apenas sussurrou:

-Perdão, minha filha.

Pegou o rumo da igreja e se ajoelhou em frente à Santa.

-Madrinha, eu trapaceei no carteado com os Az. Livre minha menina.

Dias depois, o homem morreu de infarto e logo depois Beatriz caiu do cavalo preto e espatifou-se.

Fizeram rezas e cultos e nada se explicou.

Todos os anos, no Dia de Finados, romarias vão ao túmulo da Menina do Cavalo Preto em busca de bênçãos e salvação.

…………………….

Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador e crente na fé de cura de Beatriz. Vive na Guarda do Embaú, vila de pescadores no litoral de SC.

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