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Cultura

A mistura de raças em Amazônia Groove

Guilherme Sobota

“Mas égua! Que mistura pai d’égua aconteceu no Pará / Mistura de raça, mistura de cores, tradição e sabores / E o nosso tempero, o famoso banho de cheiro”, canta a sempre alegre Dona Onete em uma das faixas do seu terceiro disco, Rebujo, lançado em maio – ela faz show em São Paulo nesta sexta-feira, 7. Mas antes, na quinta, 6, chegou aos cinemas o documentário Amazônia Groove, a estreia de Bruno Murtinho em longas-metragens. O filme faz uma investida pela Amazônia para explorar os sons – ou a “mistura pai d’égua” – do Pará.

O longa abre espaço para personagens da música do estado, examinando ritmos, do violão clássico ao tecnobrega, passando pelo carimbó e pela guitarrada, sem esquecer dos arranjos mais embrenhados nas regiões ribeirinhas, como o “búfalo-bumbá”. Mesmo com o valor das histórias e das canções, o filme também se destaca por outro aspecto: em Austin, no SXSW (South By Southwest) 2019, levou o prêmio de fotografia do festival (quem assina é Jacques Cheuiche, de Edifício Master e Uma Noite em 67).

Murtinho também reuniu uma equipe de som estrelada para o filme: Mario Caldato Jr., produtor brasileiro parceiro de Beastie Boys, Bjork, Jack Johnson, Marcelo D2 e muitos outros, fez a mixagem. Roberto Pollo fez a trilha, e a ambiência do som amazônico foi realizada por Nicolas Becker, solicitado engenheiro de som que levou um Oscar com Gravidade em 2014 – é bonito notar como a primeira música do filme é a música da floresta, do canto de pássaros, insetos, água e outros elementos. A direção musical é de Marco André.

Uma das histórias contadas no filme é do Mestre Damasceno, criador do búfalo-bumbá, festa inspirada no boi-bumbá mas adaptada à cultura da Ilha de Marajó (“onde é que existe sertanejo no Marajó?”, pergunta no filme, rindo). É ali onde ele vive, na cidade de Salvaterra. Neto de escravos, começou criança a compor para as brincadeiras de folclore, mas quando fez 18 anos foi a Belém trabalhar como pedreiro – um acidente elétrico com uma betoneira lhe tirou a visão. Experiências com pajelança lhe renderam respeito na região natal e a música se tornou sua ferramenta de ver o mundo. “Eu penso em algo que existe em Salvaterra, faço uma música. Gosto de mostrar minha cultura para o mundo”, diz no filme.

Quem concorda com ele é Manoel Cordeiro, elemento chave da música paraense contemporânea, também personagem do filme. “O Rio (Amazonas) inspira poesia. Grandes escritores, pensadores, antropólogos, quando chegam aqui, viram poetas. Essa poesia provém da água, dessa natureza exuberante, que Villa-Lobos disse que jamais botaria mordaça.”

O Rio, a água, funcionam então como um vetor de divulgação dos sons do Pará — é a constatação de um documentário muito bonito.

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