Segredos de família
A sobremesa da discórdia
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Mantenha a versão, por mais esdrúxula que seja, pois você estará amparado nos absurdos amoitados logo ali na esquina. Parece loucura, mas foi algo assim que, escondido atrás da porta, escutei minha avó falar para mamãe. Estava eu com exatos nove anos, pois era meu aniversário, quando recebi o presente dos meus sonhos, a camisa do Mendonça, do Glorioso. Impossível esquecer!
Não estou aqui para falar do Botafogo, apesar da minha paixão descontrolada e insana. O mote da conversa é outro. Dona Carolina, mãe da minha mãe, possuía um tipo raro de personalidade dominadora, o que era nítido em relação ao primogênito, tio Rubens, um bobalhão como tantos outros homens. E não pense você que me excluo dessa lista, diria até que poderia, sem resquício de modéstia, encabeçá-la.
Certa feita, quando tio Rubens não passava de um molecote dos seus 12, 13 anos, ele tomou uma surra no pátio da escola. A coisa tomou proporções muito maiores do que deveria, e não pense você que tenha sido por conta do olho roxo e do brio quebrado. Na verdade, tal situação nunca pareceu relevante para o irmão de mamãe. A questão era outra.
Armando, o rival do meu tio, era, segundo boato à época, fruto de enlace entre meu avô e a esposa do seu sócio na loja de material de construção. Se era verdade ou não, não importava, já que um detalhe não passou despercebido por dona Carolina: aqueles olhos, ora verdes, ora azuis, do garoto. E o que era dúvida se transformou em fato.
Devido à proximidade dos sócios, almoços nos finais de semana aconteciam com frequência muito maiores do que vovó desejava. Todavia, para não provocar imbróglios desnecessários, ela fingia engolir o orgulho e, não raro, fazia questão de preparar mosaico de gelatina com creme de leite, uma de suas especialidades.
Dona Carolina, o marido, os filhos, Alberto, Lúcia e Armando, todos sentados à mesa, conversavam trivialidades. Quer dizer, os adultos se manifestavam, enquanto as crianças disputavam cada porção da sobremesa colorida. Minha avó, não duvido, desejava não somente envenenar o fruto proibido, mas principalmente pular no pescoço da amante do marido. Será que ninguém percebia tamanha semelhança entre o anfitrião e o algoz de tio Rubens?
Vovó, quanto mais injuriada se sentia, mais tratava de manter a calma para não ser acusada de louca. Que os devaneios permanecessem incrustados nos outros, já que a racionalidade lhe pertencia. E foi justamente naquele domingo, enquanto o marido fingia interesse na conversa com o sócio, mas trocava olhares suspeitos com a amante, que dona Carolina desvendou o caminho a ser tomado.
Em vez de destilar ódio, minha avó passou a tratar Armando como se ele tivesse saído de seu ventre. Melhor, pois jamais havia demonstrado tamanha devoção aos filhos. E todos, com exceção de Alberto, notaram, de alguma forma, aquele carinho desmedido de dona Carolina por Armando.
— Meu amor, não acha que está exagerando?
— Exagerando? Como assim, Rubens?
— Esse seu paparico com o filho do Alberto e da Lúcia.
— Ah, que menino maravilhoso! E como deixar de me apaixonar por aqueles olhos?
Não sei se meu avô percebeu a indireta, até porque ele fazia parte do balaio de homens da família. Já mamãe, talvez mais preocupadas com os rapazes que a cortejavam, não demonstrava interesse quanto aos afagos direcionados ao filho do sócio do pai. Até mesmo tio Rubens parecia ter se esquecido dos tabefes que havia levado e, não tardou, firmou amizade aparentemente sincera com Armando.
Quem pareceu não engolir aquela história era Lúcia, cujo semblante se mostrava cada vez mais consternado. Aposto que, na intimidade proibida, destilava ódio contra a minha avó.
— Rubens, você precisa dar um jeito na víbora da sua mulher.
— Como assim, Lúcia?
— Ela sabe! Ela sabe!
— Do que você está falando?
— Aquela megera sabe, Rubens! Ela sabe!
— Sabe o quê, meu amor?
— Tudo! Até as vírgulas, Rubens!
Para colocar mais fogo na fogueira, dona Carolina encontrou uma mulher, digamos, disposta a entrar no jogo em troca de generosa remuneração. Gláucia, era esse seu nome, foi apresentada como prima distante de minha avó. Uma versão menos glamourosa de Tônia Carrero, mas suficientemente misteriosa para atrair a atenção de Alberto. Bem, esse era o plano inicial, mas o inesperado aconteceu.
O marido de Lúcia, apesar de não ser cego, só tinha olhos para a esposa. Desse modo, o investimento de dona Carolina parecia perdido até que ela constatou que Rubens havia sido fisgado. Vovó fez breve balanço da situação e, após calcular lucros e prejuízos, apostou as fichas restantes no romance entre o próprio esposo e a bonitona de bolsa giratória.
Lúcia, que de boba nada tinha, percebeu que estava dividindo o amante com outra. Pra quê? Além de terminar o relacionamento extraconjugal, obrigou o marido a desfazer a sociedade e, em seguida, a família partiu para outra cidade. E foi assim que vovó se livrou da amante do meu avô e do suposto fruto de adultério.
Quanto à Gláucia, após algumas semanas, já devidamente remunerada, foi convencida por minha avó a ir embora, levando consigo o segredo. Isso não impediu que, vez ou outra, meu avô perguntasse sobre a prima da esposa, que sustentou a história até o último suspiro. Afinal, como dona Carolina costumava dizer, melhor cair do cavalo a cair em contradição.
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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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