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Sem convite

A tarde que os clássicos vieram sentar

Publicado

Autor/Imagem:
Luzia Couto - Foto Francisco Filipino

Fevereiro desmancha-se em ouro morno

na varanda onde o vento ainda hesita

entre o suor do verão e o primeiro arrepio do outono.

O café ferve negro no copo,

vapor subindo como alma que se lembra.

Abro o livro — e eles chegam,

sem barulho, sem convite,

fantasmas de tinta que nunca morreram.

Machado chega primeiro, de fraque invisível,

o olhar oblíquo, a ironia afiada como navalha de barbeiro.

Senta-se na cadeira de ferro enferrujado

e murmura, do fundo da cova:

“Vim ver se o mundo ainda ri de si mesmo”.

Seu riso é seco, mas dói doce no peito.

Clarice surge de repente,

como se o ar se partisse em pétalas.

Não senta: paira.

Seus olhos são poços onde a gente cai

e descobre que sempre esteve caindo.

“Macabéa”, sussurra ela ao vento,

e o nome vira estrela miúda

que ninguém vê nas calçadas de asfalto.

Guimarães não pede licença: invade.

Traz o sertão nos bolsos,

palavras que ninguém inventou ainda,

veredas que se abrem no ar parado.

Riobaldo senta ao lado dele,

o diabo no ombro esquerdo,

o amor no direito —

e os dois discutem em voz baixa

se o viver é flecha ou curva infinita.

Drummond pedala devagar,

a bicicleta rangendo versos tortos.

“No meio do caminho tinha uma pedra”,

diz ele, e para.

A pedra não é obstáculo: é altar.

Senta-se nela, acende um cigarro imaginário

e fuma o silêncio da tarde.

Jorge chega trazendo o mar dentro da camisa aberta,

cheiro de dendê, risada de cacau maduro.

Gabriela dança entre as cadeiras,

cravo na orelha, canela na pele.

Os capitães da areia correm descalços

pelo assoalho da varanda,

e por um instante a miséria vira festa.

Eles não falam ao mesmo tempo.

Conversam em ecos, em páginas viradas pelo vento,

em silêncios que pesam mais que as palavras.

O café esfria devagar,

como quem não quer ir embora.

A luz dourada alonga as sombras deles

sobre o piso gasto,

e eu fico ali,

pequeno entre gigantes,

bebendo-os junto com o último gole.

Quando a tarde se dissolve em violeta,

eles se levantam um a um, sem adeus.

Mas deixam no ar

o perfume de quem já foi tudo:

alma brasileira,

ferida e luminosa,

eternamente reescrita.

Entro.

Fecho a porta.

E levo-os comigo

no peito que ainda pulsa

como verso inacabado.

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