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Brasil

Acabou o espaço para a corrupção. E sem usar força

Foto/Arquivo Notibras
Adailton Braga

No Brasil, sempre vivemos sob a batuta de uma Estado muito centralizado, personalista e personalizado de acordo com os interesses de uma elite dominante que tem perdurado desde a origem de forma persistente no tempo histórico. Isso não tem nada a ver com ideologias, nem com teorias, nem com religiões, diretamente. Tem a ver com os interesses semeados no início da construção do País, e nos primeiros passos dados na construção da cultura, que se tornaram o norte no tempo futuro. “O que se planta, se colhe”, simples assim.

O nosso modelo de república é próprio, adaptado aos interesses iniciais de quem estabeleceu a dominação. Conforme Rousseau, a família é, pois, o primeiro modelo, daí a base de todo o restante. A família brasileira, de cunho patriarcal próprio, centralizada na figura personalista de um pai autoritário, arquétipo, estabeleceu o modelo padrão dado, estendido à sociedade e seus membros, entendidos como filhos a serem submetidos e dominados.

Esse modelo projetado para o Estado e sua dinâmica, apenas substituiu o amor, sendo o caso, do pai pelos filhos, vigente na família patriarcal, pelo prazer egoísta pelo poder, pois, mesmo que declare ter amor, zelo, preocupação, o chefe do Estado, no nosso caso, não tem amor por nosso povo, mas sim pelo poder, que é de fato inebriante, farto, aqui nesse mundo personalizado por nós, próprio da nossa construção cultural.

Nesse nosso Brasil Hobbesiano, a sociedade fica sempre a mercê dos chefes, que visam dividi-la sempre, para devorá-la. Lembrando Grotius, impõe-se o entendimento de que a sociedade brasileira nasceu para ser dominada, pois é infantilizada, pueril, diz-se em senso comum: os desvios de conduta são arraigados, tem origem na genética primordial da sociedade. A força fez os primeiros escravos, mas uma sociedade covarde, os perpetua. Logo, como mostrar o contrário? Urge ação, pois fé é sinônimo de ação.

Mesmo com o surgimento de um Robinson, saindo de uma dita ilha, onde solitário reinava absoluto, para reinar entre nós, parece que o enredo pode se impor no caminho de sempre, que parece perpétuo. O discurso fácil “cedei à força”, parece um preceito bom, mas apenas repete o enredo primordial que construiu todas as mazelas, com as quais nos deparamos.

Força não constrói autoridade, apenas cria uma falsa impressão de poder, pois não constrói legitimidade no tempo. Há que se refletir sobre isso de forma muito séria. Nenhum gênero, por mais poder que detenha, que é sempre transitório, jamais virá a possuir uma autoridade natural sobre seus semelhantes. Ledo engano caminhar nessa direção, pois medidas de força não produzem nenhum direito, e a imposição de convenções próprias de segmentos, por mais adequadas sejam à esses segmentos, não produzem autoridade legítima entre toda a sociedade, que irá sempre reagir.

Não é dado a nenhuma sociedade renunciar à própria liberdade, face a nenhum tipo de dificuldades, conflitos ou contradições, ideologias ou crenças, pois essas passam. Como se diz nas ideias sobre sustentabilidade, é a adequada preservação dos patrimônios presentes, e que garantem a qualidade de vida para as gerações presentes e futuras. Portanto, não podemos jamais negar às gerações presentes e futuras o bem maior, que é a liberdade no sentido amplo, alicerce de todos os outros direitos.

Não é preciso relembrar que degeneração e degradação na cultura, não se situam no bojo da liberdade; são efeitos de outras causas. Renunciar a qualquer fatia de liberdade e autonomia, inibe, constrange, espalha sombras sobre a qualidade dos seres humanos e da sociedade, restringe direitos, conquistas produzidas à ferro e fogo, fruto do nosso esforço humano, e constrange mais ainda a altivez de toda a sociedade.

Quem detém o poder, de forma sempre transitória, ao exercê-lo, tem que ter claro que a sociedade é um só corpo, e que não se pode ofender partes dela sem atacar o conjunto social, sem que ofenda o corpo sem que os membros disso se ressintam. É cristalino compreender que cabe ao poder constituído buscar reciprocidade e equidade no sentido amplo com o conjunto da sociedade, estabelecer pontes de reciprocidade.

O exercício do poder precisa se revestir do manto da autoridade, visando evitar abusos no jogo da máquina política, buscando legitimidade nas ações, e fazendo todo o possível para evitar medidas absurdas, tirânicas e sujeitas a semear sofrimento, além dos que já perduram sobre a sociedade.

Não é mais possível um pequeno grupo de pessoas, apropriar-se de todo um imenso território, e explorá-lo a bem próprio, com imensa gula patrimonial, privando toda a sociedade de também usufruir desses bens em termos de qualidade de vida e prosperidade. É preciso construir um país que é de todos, mas que seja também para todos. Daí surge uma reflexão fundamental: Qual a responsabilidade da sociedade com o que não participa ou decide?

Quando os indivíduos e as famílias são deixados completamente de lado em qualquer tipo de decisão, ou expostos à barbárie, não tem responsabilidade sobre o que é decidido, mas sofrem sempre as consequências geradas por essas decisões.

O acúmulo de erros acumulados de governo após governo, como corrupção desenfreada, uso irresponsável do dinheiro público, desperdícios variados de recursos em todos as áreas, projetos mal planejados e desenvolvidos, obras inacabadas e abandonadas, e justificativas públicas sem fim, não tem mais espaço.

Mas o mundo mudou de configuração, as gerações atuais, melhor informadas, exigem dos dirigentes muito mais sabedoria, do que a já demonstrada. A verdade no exercício do poder é o único terreno no qual a autoridade poderá germinar as esperanças pleiteadas pela sociedade no seu conjunto, pois não há autoridade no exercício do poder de forma parcial, e a autoridade não carece de força.

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