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Cultura

‘Alegria dos Homens’, de Pernambuco para o mundo

Carolina Paiva, Edição

Compositor, cantor e poeta pernambucano, Armando Lôbo volta a ocupar o espaço que lhe é devido no cenário cultural. E isso vem na esteira das mudanças estéticas, culturais e sociais que o Brasil enfrentou da virada do século para cá.  Até porque, na música brasileira, evidentemente, ocorreu o mesmo, com novos artistas, tendências, fusões estilísticas, etc.

Um exemplo clássico é o álbum Alegria dos Homens, lançado há quase 20 anos, que arrebatou na época grandes elogios da crítica especializada em todo o país. Repleto de inovações, estranhezas e referências ao Barroco, o trabalho implodia categorias, apontando novos caminhos para a canção brasileira. Seu autor buscava provocar a mesmice bem-comportada da MPB da época, com intensa polifonia e carga dramática, arranjos complexos e enorme variedade de ritmos e temas que, poeticamente, investigavam a alegria trágica do povo brasileiro.

Co-produzido pelo próprio Armando Lôbo e o músico paulistano Maurício Pereira, Alegria dos Homens era até então o único CD do músico pernambucano que ainda não estava distribuído nas plataformas digitais. O álbum é agora lançado digitalmente após reedição, remixagem e masterização, seguindo padrões de streaming. Além disso, ganhou uma capa nova, que reforça a acidez tropical do trabalho.

Marcado pelo sentido do grotesco carnavalesco, Alegria dos Homens esbanja festa, escatologia, futebol, religiosidade, lirismo, ironia, violência e ternura em 11 faixas bastante diferentes entre si – um agônico e vertiginoso desfile de arquétipos da cultura brasileira. Abrindo o disco, Agnus Dei tem sua forma inspirada na passacaglia barroca e sincretiza, ao mesmo tempo, um trecho da Missa em latim com sonoridades de candomblé, harmonia dissonante e ecos jazzísticos.

Com ritmos inspirados na música nordestina, com melodia e harmonia dramáticas, Mandinga canta o amor e o feitiço na cultura brasileira, de arranjo em tratamento polifônico e letra do escritor e ator gaúcho Edison Nequete (1926-2010), filho de Abílio de Nequete, um dos fundadores do PCB. Em seguida, o samba-caboclinho, de clima buarqueno, Um minuto e meio descreve as emoções do torcedor durante uma partida de futebol através de um duelo contrapontístico dos sopros, alegorizando a troca de passes entre os jogadores.

Estabelecendo um diálogo crítico com o lado mais social da música de Chico Buarque, Lei da vitimização traz no arranjo a presença de ritmos pernambucanos, frevo e caboclinho. O xote-baião de Sanfoneiro mudo faz um paralelo entre o molejo nordestino e a picardia do compositor francês Erik Satie, numa espécie de ironia ao ludismo multicultural. A letra, surreal, relata o problema “estético-fonoaudiológico” de um sanfoneiro que perdeu a língua e também a sua amada.

O álbum segue com suas idiossincrasias corrosivas com Crônica de um envergonhado, um desabafo feminino diante da masculinidade romântica. A melodia do refrão tem irônico apelo sentimental e a harmonia usa ocasionais choques de segunda menor para musicalmente representar o atrito de gênero – a mulher falante é uma Lilith desconcertante e iconoclasta.

Em Ciência, alegria dos homens, o músico pernambucano confronta o cientificismo tecnológico contemporâneo com a ciência estética barroca, satirizando também a banalidade da música pop por meio de um pastiche contrapontístico em forma de cânone. Escrita para quarteto de saxofones, o frevo neobarroco Bachiando no frevo é o primeiro (e, talvez, o único) frevo escrito em forma de fuga estrita que se tem notícia. O tema, desenvolvido à moda bachiana, é inspirado no compositor pernambucano Levino Ferreira.

Já o frevo-de-bloco Futebol iraniano traz uma letra surreal, inventando um laço que une a fé muçulmana à paixão “pagã” futebolística. O ritmo, apesar das células do frevo, é desenvolvido em um insólito 7/4, e é cantada por um pequeno coro feminino, à moda das pastoras pernambucanas. Na introdução e no final, podemos ouvir sons de um instrumento oriental de sopro.

Bossa nerd, um samba-bossa bem-humorado, comenta a globalização com uma letra propositalmente débil, de harmonia relativamente característica do estilo, porém com melodia sugerindo um tipo de angulosidade que é marca do autor. Em seguida, O menino João Maria se apresenta como uma “canção-resposta” à personagem infantil do livro de Gilberto Freyre “Dona Sinhá e o filho padre”.

O compositor procurou o arquétipo corrosivo de uma criança que fosse a alegoria do Brasil, ao contrário da criança singular da semi-novela do grande escritor recifense. Sua remixagem deixou a canção um tanto diferente da versão original, de 2002 – as características de harmonia intervalar e contrapontos instrumentais continuaram preservadas, mas atenuadas.

Por fim, Soco indolor se revela uma canção de câmara que descreve a busca do homem para encontrar o amor transcendental, depois de ter sido seduzido por demônios. Sua inspiração poética entrecruza a lenda medieval do Tannhäuser com gravuras do escritor inglês William Blake. A harmonia tem certo caráter impressionista e jobiniano, que se choca propositalmente com o espírito expressionista da proposta.

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