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TERROR CLÁSSICO

AMIGA MORTA REGRESSA PARA UMA ÚLTIMA CONVERSA

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Autor/Imagem:
Daniel Defoe - Foto Francisco Filipino

A APARIÇÃO DA SENHORA VEAL

Prefácio

O relato que se segue é apresentado como fato verdadeiro, acompanhado de circunstâncias capazes de convencer qualquer espírito razoável. Foi remetido por um cavalheiro, juiz de paz em Maidstone, no condado de Kent, a um amigo em Londres, nos termos em que aqui se publica. Esse mesmo relato foi confirmado por um homem prudente e sensato, que o recebeu de uma parenta sua, moradora de Canterbury, a poucas casas da residência da Sra. Bargrave, a quem tudo aconteceu.

Segundo essa testemunha, a Sra. Bargrave era mulher honesta, virtuosa e de vida piedosa, incapaz de inventar semelhante história por leviandade ou interesse. Por isso, cabe ao leitor tirar desta narrativa o ensinamento que ela oferece: o de que há uma vida além desta, de que existe um Deus justo, e de que cada qual responderá pelas obras que praticou em vida. Convém, pois, refletir sobre o curso de nossos dias, tão breves e incertos, e apressar-nos em abandonar o mal, aprendendo a fazer o bem, se quisermos escapar ao destino dos ímpios e alcançar a recompensa dos justos.

Tão singular é este caso em todas as suas circunstâncias, e tão respeitável a autoridade que o sustenta, que nada semelhante encontrei em minhas leituras ou conversas. É matéria digna da atenção dos espíritos sérios e curiosos. A Sra. Bargrave, a quem a falecida Sra. Veal apareceu, é minha amiga íntima, e posso responder por sua reputação ao longo dos últimos quinze ou dezesseis anos. Sempre a conheci como mulher de bom senso, firmeza e probidade.

Desde que a história se tornou conhecida, porém, não faltaram os que tentassem desacreditá-la, especialmente alguns amigos do irmão da Sra. Veal, que entendem a narrativa como afronta e fazem o possível para manchar o nome da Sra. Bargrave e lançar ridículo sobre o caso. Ainda assim, basta vê-la para perceber que não há nela qualquer traço de desvario. Apesar de viver sob os maus-tratos de um marido brutal — de que fui testemunha, assim como outros de reputação irrepreensível —, jamais a ouvi entregar-se a queixas amargas ou a expressões de desespero. Conserva sempre um semblante sereno e uma disposição admiravelmente constante.

A Sra. Veal era uma senhora solteira, de cerca de trinta anos, que havia alguns anos padecia de crises nervosas, cujos sinais se revelavam quando interrompia de súbito o fio do que dizia e descambava para trivialidades. Vivia em Dover, na casa do irmão, que a sustentava. Ela era reconhecidamente piedosa; o irmão, pelo menos em aparência, homem sóbrio e respeitável. Hoje, contudo, faz quanto pode para sufocar a história.

A amizade entre a Sra. Veal e a Sra. Bargrave vinha desde a infância. Naqueles tempos, a condição material da Sra. Veal era bastante precária. Seu pai não cuidava dos filhos como devia, e ela conheceu toda sorte de dificuldades. A Sra. Bargrave, embora também tivesse um pai duro e pouco afetuoso, jamais lhe faltaram roupas ou alimento. À Sra. Veal, porém, faltavam ambos. Por isso dizia muitas vezes à amiga:

— Sra. Bargrave, a senhora não é apenas a melhor amiga que tenho no mundo; é a única. Nenhuma mudança da vida haverá de dissolver nossa amizade.

Ambas se confortavam mutuamente em seus infortúnios. Liam juntas livros devotos, em especial o de Drelincourt sobre a morte, e, como boas amigas cristãs, buscavam ali consolo para seus sofrimentos.

Mais tarde, amigos do irmão da Sra. Veal lhe conseguiram um posto na alfândega de Dover. A partir daí, pouco a pouco, a intimidade entre as duas esfriou. Nunca houve entre elas rompimento declarado, mas uma certa distância foi se instalando, até que a Sra. Bargrave deixou de vê-la por dois anos e meio. Nesse intervalo, estivera ausente de Dover por algum tempo e, nos últimos seis meses, passara cerca de dois meses em Canterbury, morando em casa própria.

Foi nessa casa que, na manhã de 8 de setembro de 1705, a Sra. Bargrave se encontrava sozinha, entregue a reflexões dolorosas sobre sua vida infeliz. Esforçava-se, contudo, por submeter-se à Providência.

“Até aqui fui amparada”, pensava consigo. “Não duvido de que continuarei a sê-lo. E minhas aflições cessarão quando for mais oportuno para mim.”

Retomara então sua costura quando ouviu baterem à porta. Foi atender. Para sua surpresa, era a Sra. Veal, vestida com traje de montaria. Nesse exato momento, o relógio deu doze badaladas.

— Senhora — disse a Sra. Bargrave —, estou espantada em vê-la; há tanto tempo a senhora se fez estranha.

E, no entanto, demonstrou alegria sincera ao recebê-la. Aproximou-se para saudá-la com um beijo, e a Sra. Veal correspondeu, até que seus lábios quase se tocaram; mas então a visitante passou a mão sobre os próprios olhos e disse:

— Não me sinto muito bem.

E, com isso, evitou o cumprimento.

Explicou então que estava prestes a partir em viagem e que sentira grande desejo de ver a amiga antes de ir.

— Mas como assim, sozinha? — perguntou a Sra. Bargrave. — Isso me admira, pois sei que a senhora tem um bom irmão.

— Ah — respondeu a Sra. Veal —, consegui escapar dele, porque desejava muito vê-la antes da viagem.

Entraram ambas num aposento interior. A Sra. Veal tomou assento justamente na cadeira em que a própria Sra. Bargrave estava sentada quando ouvira as batidas à porta. Então disse, com ternura:

— Minha querida amiga, vim renovar nossa antiga amizade e pedir perdão por tê-la deixado esfriar. Se puder me perdoar, a senhora provará ser a melhor das mulheres.

A Sra. Bargrave respondeu de imediato:

— Nem fale nisso. Nunca conservei ressentimento algum. Perdoo-a com toda facilidade.

— E o que pensou de mim? — indagou a visitante.

— Pensei apenas — respondeu a outra — que a prosperidade a fizera esquecer-se de si mesma e de mim, como acontece com tanta gente.

A partir daí, a Sra. Veal pôs-se a recordar os bons ofícios que a amiga lhe prestara em tempos de necessidade, as conversas que partilharam em seus dias difíceis, os livros que leram juntas e, sobretudo, o consolo que ambas extraíram do livro de Drelincourt sobre a morte, que ela considerava o melhor de todos sobre o assunto. Citou também o Dr. Sherlock, dois tratados holandeses traduzidos para o inglês e outras obras devotas; mas insistia em que Drelincourt tinha as noções mais claras sobre a morte e a vida futura.

Perguntou então se a Sra. Bargrave ainda possuía esse livro.

— Sim — respondeu ela.

— Então vá buscá-lo.

A amiga subiu, trouxe-o, e a Sra. Veal, com gravidade tocante, disse:

— Minha querida Sra. Bargrave, se os olhos da fé estivessem tão abertos quanto os olhos do corpo, veríamos ao nosso redor multidões de anjos encarregados de nossa guarda. Tudo o que imaginamos agora sobre o céu é nada em comparação com o que ele é de fato. Por isso, suporte com ânimo suas aflições. Creia que Deus a contempla de modo especial, e que seus sofrimentos são sinais de seu favor. Quando houverem cumprido o fim para o qual foram enviados, serão retirados. Acredite em mim: um único minuto da felicidade futura compensará infinitamente todos os seus padecimentos. Não posso crer que Deus a deixe consumir todos os seus dias nesse estado. Fique certa de que, em pouco tempo, ou as aflições a deixarão, ou a senhora as deixará.

Falava com tamanha unção e doçura que a Sra. Bargrave se comoveu profundamente e chorou várias vezes.

Depois, a Sra. Veal mencionou o livro ascético do Dr. Horneck, no qual se descreve a vida dos primeiros cristãos, recomendando-lhes o exemplo.

— A conversa deles — disse — não se parecia com a dos nossos dias. Hoje quase tudo é frivolidade e vaidade. Entre eles, a fala servia para edificar, para fortalecer a fé, para elevar uns aos outros. Havia amizade sincera entre aquelas almas. Onde se encontra isso agora?

— É mesmo difícil achar um amigo verdadeiro — respondeu a Sra. Bargrave.

— O Sr. Norris tem uns belíssimos versos, chamados Friendship in Perfection, que muito admiro. Já os leu?

— Não impressos, mas os copiei de próprio punho.

— Então vá buscá-los.

A Sra. Bargrave trouxe os versos. Ofereceu-os para que a amiga os lesse, mas a Sra. Veal recusou, dizendo que baixar a cabeça lhe fazia doer. Pediu, então, que fossem lidos em voz alta. Enquanto os escutava, exclamou em certo momento:

— Minha querida Sra. Bargrave, eu a amarei para sempre.

Em duas passagens dos versos aparecia a palavra Elysian. A Sra. Veal comentou com leveza:

— Esses poetas têm cada nome para o céu…

Durante toda a conversa, repetia um mesmo gesto: levava a mão aos olhos e perguntava:

— A senhora não acha que minhas crises me deixaram muito abatida?

Mas a Sra. Bargrave, olhando-a, respondia:

— Não. A senhora me parece tão bem quanto sempre esteve.

Depois de tudo isso — e a Sra. Bargrave diria mais tarde que a visitante usara palavras ainda mais belas do que aquelas que ela própria era capaz de reproduzir, embora não se pudesse esperar que uma conversa de uma hora e quarenta e cinco minutos ficasse inteira na memória — a Sra. Veal passou a tratar de um assunto estranho. Pediu que a amiga escrevesse uma carta a seu irmão, informando-lhe que desejava deixar certos anéis a determinadas pessoas; disse também que havia uma bolsa com ouro em seu armário e que queria que duas moedas largas fossem entregues à prima Watson.

A Sra. Bargrave, ouvindo esse tipo de recomendação, imaginou que uma crise estivesse para acometer a amiga. Sentou-se, por isso, de modo a poder ampará-la, caso viesse a cair, e, para distraí-la, segurou-lhe a manga do vestido algumas vezes, elogiando o tecido.

A Sra. Veal explicou que era seda lavada e recentemente reformada.

Mesmo assim, insistiu em seu pedido:

— A senhora deve contar tudo isso ao meu irmão quando tiver oportunidade.

A Sra. Bargrave hesitou.

— Minha querida Sra. Veal, isso me parece tão impróprio… Como poderei dizer tal coisa a um moço? Não seria melhor que a senhora mesma o fizesse?

— Não — respondeu a outra. — Embora lhe pareça descabido agora, mais tarde a senhora verá que havia motivo.

Ainda para satisfazê-la, a Sra. Bargrave se dispôs a buscar pena e tinta, mas a visitante a deteve:

— Não agora. Faça-o depois que eu partir. Mas não deixe de fazê-lo.

Foi uma das últimas recomendações que lhe fez.

A certa altura, a Sra. Veal perguntou pela filha da amiga. A moça não estava em casa.

— Se quiser vê-la, mando chamá-la.

— Faça isso.

A Sra. Bargrave saiu então por um instante para procurá-la numa casa vizinha. Quando voltou, encontrou a Sra. Veal já do lado de fora, na rua, diante do mercado, pronta para despedir-se. Estranhando a pressa, perguntou-lhe por que saía tão depressa.

A visitante respondeu que precisava ir, embora talvez só seguisse viagem na segunda-feira. Disse ainda que esperava tornar a vê-la na casa da prima Watson antes de partir definitivamente para onde ia. Em seguida, despediu-se e afastou-se caminhando até desaparecer de vista ao dobrar uma esquina. Eram quase duas horas da tarde.

Ora, a Sra. Veal havia morrido no dia anterior, 7 de setembro, exatamente ao meio-dia, vencida por suas crises. Antes de morrer, tivera não mais que quatro horas de lucidez, durante as quais recebera o sacramento.

No dia seguinte à aparição, sendo domingo, a Sra. Bargrave estava tão adoentada de resfriado e dor de garganta que não pôde sair. Mas, na manhã de segunda-feira, mandou recado à casa do Capitão Watson, perguntando se a Sra. Veal se encontrava ali. A pergunta causou surpresa. Responderam-lhe que não, nem a esperavam.

Crendo ter havido algum engano, a própria Sra. Bargrave, embora indisposta, vestiu-se e foi até lá. Disseram-lhe, mais uma vez, que a Sra. Veal não estivera na cidade.

— Mas ela esteve comigo no sábado durante quase duas horas — insistiu a Sra. Bargrave.

Os membros da casa replicaram que isso era impossível; se a Sra. Veal tivesse vindo, certamente teria passado por ali.

Nesse momento entrou o Capitão Watson e encerrou a dúvida:

— A Sra. Veal está morta. Os escudos funerários dela estão sendo preparados.

O espanto da Sra. Bargrave foi enorme. Mandou confirmar imediatamente a notícia e verificou que era verdadeira. Então contou a todos o que se passara: descreveu o vestido usado pela morta, suas listras, e acrescentou que a própria Sra. Veal lhe dissera que ele havia sido lavado.

Ao ouvir isso, a Sra. Watson exclamou:

— Então a senhora realmente a viu, porque ninguém sabia, além de mim e dela, que esse vestido havia sido lavado.

E acrescentou ainda:

— Fui eu mesma quem a ajudei a reformá-lo.

A confirmação causou alvoroço na cidade. A Sra. Watson espalhou a história por toda parte, assegurando a exatidão da descrição. O Capitão Watson levou dois cavalheiros à casa da Sra. Bargrave para ouvirem dela própria a narrativa. Em pouco tempo, a notícia se espalhou de tal modo que pessoas de toda condição, inclusive homens sensatos e céticos, acorreram para ouvi-la. E a afluência foi tanta que a pobre senhora precisou, por fim, esconder-se para fugir à curiosidade geral.

Todos os que a viam e ouviam ficavam impressionados com a naturalidade e serenidade com que falava, e com a ausência de qualquer sinal de perturbação. Ela inspirava confiança a ponto de ser tido como favor especial poder escutar-lhe o relato diretamente.

A Sra. Bargrave lembrava-se ainda de outros detalhes. A morta lhe dissera, por exemplo, que sua irmã e seu cunhado vinham de Londres para vê-la.

— Como pôde ordenar as coisas de maneira tão estranha? — perguntou a Sra. Bargrave durante a visita.

— Não havia como evitar — respondera a Sra. Veal.

E era verdade: a irmã e o cunhado chegaram a Dover exatamente quando ela expirava.

A Sra. Bargrave também lhe oferecera chá.

— Eu até tomaria — respondeu a aparição —, mas aposto que aquele louco do seu marido quebrou todos os seus enfeites.

A anfitriã replicou que daria um jeito de trazer algo mesmo assim, mas a visitante recusou com suavidade, e o assunto ficou encerrado.

Nas horas seguintes, enquanto eu permanecia com a Sra. Bargrave, ela ainda ia se recordando de novas palavras da falecida. Entre elas, uma informação importante: o velho Sr. Breton dava à Sra. Veal dez libras por ano, segredo de que a Sra. Bargrave não tinha conhecimento antes daquela visita.

O mais notável é que jamais variou uma linha em toda a sua narrativa. Isso desconcerta justamente os que mais desejam desacreditá-la. Um criado da casa vizinha ouviu-a falar com alguém durante cerca de uma hora, no tempo em que a Sra. Veal estava com ela. Além disso, tão logo a aparição partiu, a Sra. Bargrave foi à casa da vizinha e lhe contou, cheia de assombro, que estivera em agradável e arrebatadora conversa com uma velha amiga.

Desde então, o livro de Drelincourt sobre a morte passou a ser procurado com singular avidez. E deve-se observar mais uma coisa: apesar do incômodo, da exposição e do cansaço que toda essa história lhe trouxe, a Sra. Bargrave jamais aceitou um centavo de quem quer que fosse, nem permitiu que sua filha o aceitasse. Não teve, portanto, qualquer interesse material em propagar o caso.

Ainda assim, o Sr. Veal continuou empenhado em abafá-lo. Disse que iria falar com a Sra. Bargrave, mas, embora tenha estado na casa do Capitão Watson após a morte da irmã, nunca foi vê-la. Alguns amigos seus passaram a acusá-la de mentirosa, alegando que já sabia das dez libras pagas pelo Sr. Breton. Mas quem faz essa afirmação, entre pessoas fidedignas que conheço, tem fama consolidada de mentiroso.

O próprio Sr. Veal não chega a dizer que ela mente; prefere insinuar que os maus-tratos do marido lhe afetaram a razão. Contudo, basta vê-la e ouvi-la para que semelhante suspeita caia por terra.

Ele alega ainda que, no leito de morte, perguntou à irmã se desejava dispor de alguma coisa, e que ela respondeu negativamente. Mas os objetos de que a aparição falou eram de tão pouca monta — alguns anéis, uma bolsa de ouro, pequenas lembranças — que não se vislumbra nisso disputa material relevante. Ao contrário: tudo leva a crer que o objetivo da visita foi tornar incontestável, por meio de sinais concretos, a verdade da aparição, resguardando a boa-fé da Sra. Bargrave perante as pessoas sensatas.

Há ainda a questão da bolsa de ouro. O Sr. Veal reconhece que ela existia, mas diz que foi encontrada não no armário, como a aparição indicara, e sim numa caixa de pentes. Isso, entretanto, soa pouco convincente, pois a Sra. Watson declarou que a Sra. Veal zelava tanto pela chave do armário que não a confiava a ninguém; logo, parece improvável que deixasse fora dali seu ouro.

Quanto ao gesto frequente de levar a mão aos olhos e perguntar se as crises a haviam abatido, parece-me claro que a Sra. Veal o fazia para preparar a amiga, a fim de que esta não se espantasse com pedidos tão semelhantes aos de uma pessoa prestes a morrer. E, de fato, a Sra. Bargrave tomou tudo aquilo por efeito iminente de uma crise, em vez de se alarmar. Foi, nisso também, manifestação de delicadeza: a aparição quis confortá-la, não aterrorizá-la. Viera em plena luz do dia; evitara o beijo; surgira quando a amiga estava sozinha; e partira de modo a impedir nova aproximação física.

Não vejo, pois, por que o Sr. Veal haveria de considerar ofensiva uma narrativa que, para a maioria, antes recomenda a memória da irmã. Todos a tomam por espírito benfazejo, tão celestial foi a natureza de seu discurso. Seus dois grandes propósitos parecem ter sido consolar a Sra. Bargrave em seus sofrimentos e pedir-lhe perdão pelo esfriamento da amizade, exortando-a com palavras de piedade e esperança.

Em suma: supor que a Sra. Bargrave tenha inventado, entre o meio-dia de sexta-feira e o meio-dia de sábado, uma narrativa tão minuciosa, coerente e isenta de interesse, sem se contradizer em circunstância alguma, é lhe atribuir engenho extraordinário, rara fortuna e malícia incomum — mais do que qualquer observador imparcial admitiria.

Perguntei-lhe várias vezes se tinha certeza de haver tocado o vestido da Sra. Veal.

Ela respondeu modestamente:

— Se posso confiar nos meus sentidos, tenho certeza de que sim.

Perguntei também se ouvira algum som quando a visitante batia as mãos nos joelhos. Ela disse não se lembrar, mas acrescentou que a aparição lhe parecera tão sólida quanto qualquer pessoa viva.

— Posso ser persuadida com a mesma facilidade de que a sua aparição está agora falando comigo quanto de que não vi realmente a Sra. Veal — disse-me ela. — Eu não estava com medo. Recebi-a como amiga e dela me despedi como tal. Não daria um vintém para convencer ninguém desta história. Não tenho qualquer interesse nela. Ao contrário, só me trouxe fadiga e aborrecimento. Se não tivesse vindo a público por acaso, talvez jamais tivesse sido divulgada.

Hoje, diz ela, prefere guardar a experiência para si, fazendo dela um uso íntimo e espiritual, e evitando, tanto quanto pode, o assédio dos curiosos. E assim tem feito.

Quanto a mim, este acontecimento me impressionou profundamente. Estou tão convencido de sua verdade quanto estou de qualquer outro fato solidamente estabelecido. E me parece estranho que se queira contestar um fato apenas porque não somos capazes de explicar com exatidão coisas acerca das quais não possuímos noções demonstrativas. Em qualquer outro assunto, a sinceridade e a autoridade da Sra. Bargrave seriam tidas como incontestáveis.

…………..

Tradução – Cecilia Baumann

Daniel Defoe (c. 1660–1731) foi escritor, jornalista e panfletário inglês, considerado um dos precursores do romance moderno.
Ganhou projeção sobretudo por Robinson Crusoé, mas sua obra transita também pela crônica, pelo ensaio político e pela narrativa de viés documental.
Sua escrita combina invenção literária, observação social e forte aparência de relato verdadeiro, marca visível em muitos de seus textos.
Além da literatura, teve atuação intensa na vida pública inglesa, envolvendo-se com política, comércio e imprensa.

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