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Meu pai

Amor feito de presença

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@donairene13 - Foto Arquivo Pessoal

Meu pai nunca foi um homem de dizer “eu te amo”. Não me lembro de ter ouvido essas palavras saindo da sua boca nenhuma vez. Mas hoje eu entendo que existem pessoas que amam com presença, com cuidado, com gestos pequenos e concretos. Meu pai amava assim, amava em silêncio. E talvez justamente por isso esse amor tenha ficado tão profundamente gravado em mim.

Agora, nesse momento de dor, minhas memórias voltam para um passado distante. Voltam para as noites de sexta-feira da minha infância, quando eu e meus irmãos esperávamos acordados meu pai chegar do trabalho. E eu me lembro da sensação do alívio quando ele finalmente chegava. Às vezes eu começava a contar alguma coisa que tinha acontecido durante o dia e, não sei por quê, contava chorando. Talvez fosse saudade acumulada, talvez fosse apenas a necessidade infantil de voltar a me sentir segura. E então ele dizia: “não precisa chorar”, enquanto tirava de dentro de uma cesta pequenos presentes que geralmente eram frutas, pedaços de bolo, coisas simples que ganhavam tamanho de tesouro nas mãos dele.

Lembro-me também da garupa da bicicleta. Meu pai me levava para todos os lados e eu me sentia feliz simplesmente porque estava ali, atrás dele, atravessando o mundo. Lembro-me da árvore de Natal improvisada que montamos juntos usando o galho seco de um arbusto, algodão e bolas coloridas. Lembro-me dele me ensinando a ler, pacientemente, me explicando o som do “lh” e do “ch”, me ajudando com o dever de casa. Lembro-me de assistir ao Jaspion ao lado dele e das nossas disputas de desenho e pintura, que ele sempre vencia, não porque pintasse melhor, mas porque, na minha cabeça de criança, tudo que meu pai fazia era bonito e perfeito.

Mas, acima de todas as lembranças, existe uma sensação que permanece intacta dentro de mim: meu pai me defendia de tudo. Ao lado dele eu me sentia invencível. Existia no mundo uma segurança que só a presença dele era capaz de criar.

E é por isso que agora dói tanto imaginar um mundo sem ele. Porque uma parte de mim, da minha coragem e da minha sensação de abrigo sempre veio da voz dele dizendo calmamente: “não precisa chorar”. Se ele pudesse me ver agora, enquanto escrevo essas linhas, era isso que ele estaria dizendo.

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