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Vaidades

As filhas da dona Lourdes

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Minha mãe, dona Lourdes, era muito vaidosa. Creio que Fátima, minha irmã mais velha, seja a que herdou essa característica com mais ardor, se bem que Lorena, a caçula, não fica muito atrás. Diria que sou a menos adepta a banhos de loja, passo um batom e olhe lá. Isso, aliás, me rendia várias broncas.

— Joana, minha filha, por favor, por que você não passa uma maquiagem?

— Ah, mamãe, não gosto.

— Hum! Desse jeito, você nunca vai arrumar marido.

Pois é, mamãe pensava que não, mas namorei bastante na juventude, me casei aos 32, tive até alguns casos, dois ou três um tanto tórridos, quando pensei até em separação. E tudo isso de cara limpa. Imagina, então, se eu inventasse de pintar o rosto.

Creio que a minha vida amorosa não chegou aos ouvidos da dona Lourdes ou, caso tenha chegado, ela preferiu manter a compostura. Lorena, por sua vez, uma vez me abordou como se fosse a senhora moralidade.

— Joana, tu tá saindo com o marido da Shirley?

— Ih, mulher, me erra!

— Tá ou não tá?

— Tu virou minha mãe agora? Quer me dar lição de moral? Vá procurar saber onde o seu marido tá, mulher.

— Olha como fala do Cláudio!

Se a Fátima não tivesse intervindo, a minha mão, não tardaria, retiraria metade do blush da cara da minha querida irmã mais nova. Mamãe, que naquele tempo já havia sido desacreditada pelos médicos, encarava de forma honesta o estado terminal de câncer de mama. Lutou por anos, e nós três procuramos ficar ao seu lado até os últimos momentos.

Dona Lourdes, apesar de ciente do fim que se aproximava, fazia questão de se manter impecável. Minhas irmãs e eu revezávamos nos cuidados, inclusive de beleza, que mamãe fazia questão de não abrir mão. Certa vez, tentamos retirar a sua dentadura para que ela dormisse melhor, mas minha mãe resistiu, fechou a boca.

Alguns dias depois, mamãe sucumbiu à doença. Fátima, Lorena e eu escolhemos um vestido florido, o preferido de nossa mãe. Os cabelos, antes volumosos, estavam ralos, o que fez dona Lourdes nos obrigar a comprar uma bela peruca de fios naturais. Também a maquiamos, ela ficou linda. E assim mamãe foi enterrada. Com a dentadura.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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