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Curiosidades

Aumento de algas no Atlântico intriga cientistas

Antônio Albuquerque, Edição

Há pouco mais de dois anos – em pleno verão -, uma grande (e intrigante) faixa de algas marrons apareceu no oceano Atlântico — ela se estendia de uma costa a outra, da África Ocidental ao golfo do México. Com 8.850 quilômetros, a floração de algas marinhas, conhecida como o “grande cinturão de sargaço (sargassum) do Atlântico”, foi a maior já registrada.

Pesquisadores que analisaram imagens de satélite estimaram sua massa em mais de 20 milhões de toneladas — mais pesada do que 200 porta-aviões completamente carregados.

Embora esse evento, em 2018, tenha sido recorde, a proliferação de sargaço gera incômodo há alguns anos no Atlântico, uma vez que prejudica a biodiversidade costeira, a pesca e a indústria do turismo no Caribe e no México. Barbados, por exemplo, declarou estado de emergência nacional em junho de 2018, depois que sua costa foi tomada pelo sargaço.

E é um problema que parece estar piorando no Atlântico. Depois de analisar 19 anos de dados de satélite, pesquisadores da University of South Florida, nos EUA, descobriram que desde 2011 a floração de sargaço acontece anualmente e está crescendo em tamanho.

“2011 foi um ponto de inflexão. Antes, não víamos muito sargaço. Depois disso, estamos vendo florações de sargaço enormes e recorrentes na região central do Atlântico”, diz Mengqiu Wang, da University of South Florida, uma das integrantes da equipe que descobriu a proliferação de algas no Atlântico em 2018. As florações são maiores em junho e julho, segundo ela.

Outros pesquisadores, como Elizabeth Johns, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA, concordam que 2011 foi um ponto de virada para o sargaço no Atlântico, sugerindo que as florações futuras serão provavelmente ainda maiores.

De fato, um navio de pesquisa no Caribe registrou concentrações de sargaço 10 vezes maiores no outono de 2014 do que no episódio de 2011 — e 300 vezes maiores do que qualquer outro outono nos últimos 20 anos, de acordo com uma pesquisa realizada pela cientista marinha Amy Siuda e seus colegas da Sea Education Association (SEA), da instituição Woods Hole Oceanographic, em Massachusetts, nos EUA.

Embora as causas exatas da proliferação ainda não tenham sido descobertas, a equipe de Wang acredita que uma série de fatores ambientais estão contribuindo para a explosão de sargaço. Entre eles, correntes marítimas e padrões de vento anormais ligados às mudanças climáticas.

Acredita-se que a destruição da floresta Amazônica também tenha alimentado o crescimento do sargaço. À medida que grandes áreas da floresta tropical são desmatadas, são substituídas por terras agrícolas altamente fertilizadas.

O fertilizante acaba no rio Amazonas e por fim no Atlântico, onde inunda o oceano com nutrientes como nitrogênio. Registros mostram que durante a grande floração de 2018, houve níveis mais elevados de nutrientes na região central do Atlântico onde o sargaço cresce, em comparação com 2010, acrescenta Wang.

Quando se dispersa em águas abertas, o sargaço — às vezes chamado de “floresta tropical dourada flutuante” — serve como um importante viveiro para filhotes de tartaruga e um refúgio para centenas de espécies de peixes.

O problema surge quando o sargaço chega às praias e começa a apodrecer, emitindo sulfeto de hidrogênio — um gás que cheira a ovo podre.

“É uma boa vegetação no oceano, na praia se transforma em algo ruim”, explica Wang.

O cheiro forte e a aparência desagradável estão afastando os turistas dos resorts à beira-mar no Caribe e na península de Yucatan, no México — um duro golpe para a economia da região, que depende muito do turismo.

Em 2018, Laura Beristain Navarrete, prefeita da cidade costeira de Playa del Carmen, no México, disse a um jornal local que o número de turistas na região havia caído em até 35% devido ao sargaço.

Remover as algas das praias é um processo caro e demorado. Em 2019, o presidente do México, Andrés Manuel López Obrador, estimou o custo da limpeza de todo o sargaço naquele ano em US$ 2,7 milhões — e convocou a Marinha do país para ajudar.

Além do impacto catastrófico no turismo, o sargaço também é um problema de saúde pública, segundo Wang. Quando se decompõe, ele atrai insetos que podem causar irritação na pele; e a exposição ao sulfeto de hidrogênio tem sido associada a sintomas neurológicos, digestivos e respiratórios.

As algas encalhadas também representam uma séria ameaça à vida marinha selvagem. As enormes pilhas de sargaço impedem que as tartarugas façam ninhos e prendem golfinhos e peixes nos recifes de coral.

“O sargaço pode sufocar recifes de coral ao cobri-los e dizimar viveiros de tartarugas”, afirma Mike Allen, cientista marinho da Universidade de Exeter, no Reino Unido, que desenvolveu uma maneira barata de converter sargaço em biocombustíveis e fertilizantes sustentáveis.

Allen e uma equipe de pesquisadores das universidades de Exeter e Bath, também no Reino Unido, desenvolveram um processo chamado liquefação hidrotérmica (HTL, na sigla em inglês), que usa alta pressão e temperatura para dividir a biomassa úmida em quatro componentes.

São eles: um bio-óleo que pode ser transformado em biodiesel; compostos orgânicos solúveis em água usados ​​para produzir fertilizantes; dióxido de carbono (que os pesquisadores dizem que pretendem capturar em vez de liberar na atmosfera); e carvão, um material sólido que contém todos os metais presentes nas algas, que a equipe também planeja recuperar em uma futura etapa.

“Eu comparo isso com ‘geologia em uma lata'”, diz Allen.

“Como as pressões e temperaturas são muito altas, podemos colocar praticamente qualquer coisa lá. Podemos converter plástico junto com a biomassa [de sargaço] no mesmo processo”, acrescenta. Ou seja, as redes de pesca de nylon emaranhadas nos recifes de coral também são transformadas em fertilizantes.

No entanto, há algumas desvantagens. O processo consome muita energia e funciona com combustíveis fósseis, diz Allen, embora o calor do processo possa ser recuperado e reutilizado para melhorar a eficiência.

O projeto ainda está em fase de pesquisa, e os pesquisadores converteram 100kg de sargaço até agora — mas Allen espera ampliá-lo e fazer parcerias com empresas e governos para resolver o problema. O objetivo é encontrar uma solução para a questão do sargaço que seja economicamente viável e apoie a comunidade local.

“O que estamos tentando fazer é tornar a limpeza das áreas contaminadas rentável, para que haja um incentivo para fazer isso, melhorar a qualidade de vida e proteger o meio ambiente”, explica Allen.

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