Estrada sem buracos
Autofagia da direita abre espaço para Lula continuar no Planalto
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O jogo político brasileiro, como se sabe, raramente é decidido apenas nas urnas. Ele começa muito antes, nas entranhas dos partidos, nas disputas silenciosas por espaço e, sobretudo, na capacidade de articulação — ou na falta dela; e onde não há arranjos bem ajustados, a catástrofe dá as caras. É nesse terreno que a extrema-direita brasileira começa a tropeçar nos próprios passos, abrindo, paradoxalmente, o caminho para que Luiz Inácio Lula da Silva mantenha as chaves do Palácio do Planalto.
Inflado por bolhas digitais que confundem engajamento com realidade eleitoral, Flávio Bolsonaro tenta sustentar a narrativa de que está colado, ou até à frente, de Lula nas projeções para 2026. Trata-se, porém, de um castelo erguido sobre algoritmos, não sobre votos. E algoritmos, como analists e marqueteiros políticos bem sabem, não comparecem às urnas.
O problema central não está apenas na superestimação de forças, mas na fragmentação interna. O bolsonarismo, outrora coeso em torno de Jair Bolsonaro, hoje se vê dilacerado por disputas de protagonismo, divergências estratégicas e uma guerra silenciosa entre correntes que disputam o espólio político do ex-presidente. É a autofagia em sua forma mais pura. É isso o que acontece quando o adversário deixa de ser o outro e passa a ser o próprio aliado.
Enquanto isso, no campo externo, a aposta em uma eventual influência de Donald Trump nas eleições de outubro soa mais como desejo do que estratégia. Envolvido em turbulências internas e em uma escalada internacional marcada por tensões com o Irã, Trump enfrenta seus próprios fantasmas. Portanto, esperar que ele funcione como avalista político da direita brasileira, com a promessa de acesso irrestrito às nossas terras raras, é, no mínimo, uma leitura desconectada da realidade.
A consequência desse cenário é previsível. Dividida, a direita perde capacidade de mobilização, dilui votos e enfraquece seu discurso. Sem unidade, não há projeto competitivo, mas o naufrágio de uma disputa real pelo poder.
Do outro lado, Lula observa, uma vez que ele não precisa avançar com ímpeto; ao presidente basta apenas não errar. Mesmo porque, em política, muitas vezes vencer é saber esperar o adversário se autodestruir. E nesse momento, a direita brasileira parece empenhada em cumprir esse roteiro com rigor quase didático.
Se nada mudar no tabuleiro, o desfecho tende a ser menos resultado de força e mais de inércia. Não por uma hegemonia absoluta do lulismo, mas pela incapacidade da oposição de se apresentar como alternativa viável. O que se observa é que enquanto a extrema-direita se devora por dentro, o Planalto segue com as portas abertas para quem, hoje, sequer precisa forçar a entrada.
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Marta Nobre é Editora Executiva de Notibras
