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Brasil

Bolsonaro deve saber que tudo e todos têm limites

Mathuzalém Junior*

Muito mais do que sadismo, é desumanidade mentir sobre o maior bem do ser humano: a vida. É o que prega sempre que pode o presidente da República e alguns de seus mais fanáticos ministros quando insistem em indicar a cloroquina e a hidroxicloroquina como medicamentos eficazes no combate ao coronavírus. Ainda mais lamentável é exigir que os colaboradores da Presidência gravem vídeos em defesa do remedinho que mata parasitas. Apesar de censurável, a ideia até que não é má, considerando que um dos efeitos colaterais da tubaína pode ser o piolho atingir e perturbar a cabeça de quem experimentar os comprimidinhos do mal.

A receita oficial chega a ser cruel, maldosa, desrespeitosa e perversa. Outra desumanidade é distribuir textos apócrifos e covardes “comemorando” a morte daqueles que, por serem pessoas de bem, não se alinharam a Bolsonaro. Em nome de Deus e lembrando sempre que o mandatário visita pequenas igrejas para cultuar Jesus, esculacham, por exemplo, as memórias de Paulo Gustavo, Fernanda Young, Gustavo Bebianno, Paulo Henrique Amorim, Gilberto Dimenstein, Alfredo Sirkis, Sérgio Sant’Anna e o senador Major Olímpio. Da lista negra de comemorações bolsonaristas também fazem parte eventuais “derrotados” pelo capitão, entre eles o ex-juiz Sérgio Moro, o governador João Dória e os deputados federais Joyce Hasselmann e Alexandre Frota.

É esse o cara? É esse o presidente que temos de chamar de nosso? Sou temente ao Criador, mas não sou adepto de fanatismos, tampouco recorro a Ele para justificar celebrações, ainda que anônimas, sobre a morte alheia. Ninguém sabe o valor da vida. Eles (os extremistas) sabem. Tanto que, entre os mortos da chacina do Jacarezinho, somente o policial civil era íntegro e probo. Os demais 29 cadáveres são de bandidos. Ser humano algum tem culpa de torcer errado. Por isso, lamentei – e muito – o passamento de amigos (e foram vários) que viraram números por causa da cloroquina. Lamentavelmente, tomaram e se finaram logo após a ingestão do “milagroso” comprimido e antes mesmo da primeira eructação (o popular e abominável arroto).

Que Deus os tenham em paz e bem juntinhos dos que partiram empurrados pelas pragas do bolsonarismo. E não foi mera coincidência. Foram infectados, não se curaram e partiram dessa para melhor. Agora, terão de reaprender a viver comunitariamente, a respeitar as diferenças e, principalmente, a reconhecer que disseminar o ódio não é divino. Como o tempo é o melhor companheiro da razão, na nova velha vida certamente descobrirão quem falava a verdade. Enquanto não subo aos céus para refletir e concluir sobre o verdadeiro “criador” do vírus, o ideal é ficar longe dele. Por isso, seguindo a lógica dos extremistas, que usam ivermectina, cloroquina e hidroxicloroquina contra a Covid-19, ainda não fui alcançado pela maldição viral porque tomo diariamente coquetéis de Cebion, misturado com Anapyon, Biotônico Fontoura, Cibalena, Melhoral e Aspirina.

Além disso, passo o dia com o corpo untado com Vick Vaporub e pomadas Minâncora e Hipoglós, os quais acho facilmente nas melhores casas do gênero. Pobres homens e mulheres dos extremos. Fora a máscara, o isolamento social e a vacina não há tratamento para a Covid. Você pode até não morrer, mas as sequelas serão inesquecíveis. Rico e com os melhores médicos e equipamentos à disposição, Paulo Gustavo não resistiu. Claro que é inócua a repetição dessas afirmações, na medida em que o extremismo à direita tem opinião formada e concluída a respeito do tema. Mais do que alarmistas e enfurecidos com o que foge às leis de Jair Messias, integram uma via de mão única, sem curvas, encruzilhadas, réplicas e tréplicas. Primeiro eles, segundo eles terceiro eles. Nunca é nós. Somente eles estão certos e ponto final. Combatem o comunismo, mas não sabem o que significa essa ideologia.

Aliás, igualdade não faz parte do projeto de governo desse grupo. A estratégia do presidente e de seus seguidores é simples: criar diariamente fakes, isto é, uma cortina de fumaça contra fatos comprometedores. Por isso, atacam instituições, ameaçam a democracia, desmerecem a ciência, tentam desqualificar a imprensa, desdenham de parceiros econômicos e transformam questões impossíveis em bravatas. Tudo isso funciona até interferir no futuro econômico do país. Os chineses só têm os olhos apertados. Os ouvidos, a boca e o poder de cada um dos quase 1,4 bilhão de habitantes do país são infinitamente maiores do que o ódio de meia dúzia de fanáticos. O estridente silêncio dos verdadeiros patriotas da esquerda e do centro já começou a ecoar no ventre da CPI da Covid. Os decibéis ainda são escassos e sóbrios. Entretanto, já mostraram ao Brasil e ao mundo que todos temos limites, inclusive e principalmente o presidente da República.

*Mathuzalém Junior é jornalista profissional desde 1978

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