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Brasil

Bolsonaro foi orientado a usar a lei do silêncio

Ka Ferriche

O desperdício de tempo e energia tem atrasado a reconstrução do Brasil. Belicistas e pacifistas têm desprezado a maior arma disponível na guerra moderna da informação: o silêncio. A conclusão é de especialistas que monitoram o Planalto. A falta do silêncio em momentos estratégicos, que tratam de assuntos de interesse nacional, está impedindo que importantes etapas necessárias às reformas urgentes sejam cumpridas.

A oposição liderada pelo PT, acuada no início do governo Bolsonaro, combalida pelos incontáveis crimes cometidos, foi acordada no meio do pesadelo e convencida de que está viva, leve e solta. O mais incrível: despertada pelo próprio Bolsonaro.

O equívoco de migrar a mesma estratégia da campanha eleitoral para o exercício da presidência, utilizando as redes sociais como mero usuário, pode ser facilmente verificado como o maior dos erros cometidos desde a posse. Nem é necessário recorrer a dezenas de autores qualificados para ter certeza.

Powershift, a última obra da trilogia de Alvin Toffler, que tratou das mudanças globais, é contemporânea do início da trajetória política do presidente, lançada há 30 anos. Toffler, que não era astrólogo, foi um reconhecido autor de previsões, quando acertava muito mais do que errava. Autor de provérbios impagáveis e neologismos consagrados em diversas áreas do conhecimento, muito difundidos, afirmava que “ou você tem uma estratégia ou é parte da estratégia de alguém”.

Muito popular, impressionava pelos prognósticos que destilava em seus livros. Não é pouca coisa. Previu, há quatro décadas, o fundamentalismo islâmico, o terrorismo eletrônico, a interatividade digital, a alienação social, a mídia subversiva, a desconstrução do núcleo familiar, o sucesso da TV por assinatura, o fim da União Soviética, a reunificação da Alemanha, o potencial de crescimento dos países asiáticos.

Nessa época os brasileiros mal conheciam o que era um Macintosh, criado pelo genial Steve Jobs, falecido dono da marca de eletrônicos hoje conhecida como Apple. Alvin Toffler, sim, tinha gabarito para fazer previsões responsáveis. Respeitado por líderes mundiais, seus pensamentos chamaram a atenção e orientaram nações. Até o Partido Comunista Chinês abriu suas páginas para investigar o futuro. Mikhail Gorbatchev, da URSS, Lee Kuan Yew, de Cingapura, Kim Dae-jung, da Coreia do Sul, leram e releram seus alertas sobre como o Ocidente viria para cima deles nas décadas seguintes. O resultado aí está. A sorte, segundo bolsonaristas, é que Lula odeia leitura.

Entretanto, não ganham eco no Palácio do Planalto os avisos de que as redes sociais representam um complexo mecanismo de poder e dominação. Mal utilizadas, de forma amadora e juvenil, prestam um inestimável serviço aos inimigos. As grandes corporações internacionais seguem a linha prevista por Toffler, em franco desenvolvimento e disputa mundial, que é a dominação pelo poder da informação. Essa é a razão de utilizar o silêncio como poderosa arma estratégica. Ou seja, nunca foi tão verdadeira a metáfora “em boca fechada não entra mosquito”.

A verborragia digital de Bolsonaro e familiares está criando um efeito reverso e contrário à ideia de que é uma forma de manter a militância e a popularidade. Não é. Sem deixar de preservar sua simplicidade, determinação, independência, autenticidade, seu papel de estadista exige mais atenção com os canais subterrâneos da infovia, que já monitoram milhões de indivíduos 24 horas por dia, com poder de destruição de muitos megatons.

Na superfície, ingênuos – alguns nem tanto – usuários têm utilizado o mesmo canal para destruir projetos anunciados em busca de dominação. Nos poderes Legislativo e Judiciário nacionais, onde são discutidas superficialmente em seminários as fake news, também de forma amadora, a contaminação já foi instalada. O objetivo é governar o Brasil, apesar de haver um poder Executivo eleito democraticamente. Cuidadosos observadores afirmam que o fato já está acontecendo, que além disso, a Terceira Onda, que não é propriamente aquela de Alvin Toffler, pode ser o anunciado tsunami por Bolsonaro.

Mas é fácil evitar esse desastre, basta calar a boca e desautorizar qualquer colaborador próximo e atrapalhado de regurgitar asneiras. Considerável parte do eleitorado perdeu a paciência com essa prática e com as sucessivas derrotas que poderiam ter sido evitadas no parlamento, tão frequentado pelo presidente por três décadas. O jornalista Josias de Souza definiu muito bem qual o mal a ser enfrentado: “a cleptocracia monárquica”.

A principal cadeira do país requer um ocupante capaz de identificar quem são seus potenciais e verdadeiros colaboradores, ter segurança de que estarão em funções específicas, qualificados para cumprir missões. Caso não distribua e confie atribuições, determinando objetivos, como fazem os grandes gestores, não será uma tuitada qualquer que vai garantir a estabilidade da governança. Se fizer um exercício de 30 dias em silêncio, ao contrário do que acredita, poderá recuperar a popularidade e o apoio perdidos, segundo pesquisas, nos primeiros meses de governo.

Na selva, predadores têm dificuldade em encontrar suas caças. As espécies caçadas salvam suas existências utilizando o silêncio e a imobilidade. Fazem isso apenas para sobreviver e preservar a espécie. Pode servir como exemplo. Um mês passa rápido…

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