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Brasil

Bolsonaro lembra Odorico e morre de medo da imprensa

Mathuzalém Junior*

Em qualquer situação ou segmento da vida, duas verdades são cada vez menos questionadas: a lei de causa e efeito e a reciprocidade. É o caso da imprensa brasileira, nem sempre pecadora, deveras monotemática – até por força da recorrência dos fatos -, mas normalmente com posicionamentos e acertos criticados apenas por quem deixa de cumprir deveres combinados – alguns registrados em cartório – com o semelhante, com a sociedade e, em muitos casos, com a Justiça dos homens e a de Deus. Portanto, é racional um ataque nem sempre honesto ter imediata resposta verdadeira. Pois é justamente o que incomoda fariseus, mentirosos e cascateiros.

O jornalismo nacional é exatamente igual ao que é produzido no primeiro, segundo e terceiro mundos. Com raras exceções, é até menos sensacionalista do que alguns países incluídos no grupo dos mais ricos. Denominá-lo de canalha ou mau caráter denota o pior dos sentimentos do homem: o medo, que, conforme o Wikipédia, é uma emoção do cérebro, uma sensação capaz de proporcionar um estado de alerta demonstrado pelo receio de fazer alguma coisa, geralmente por se sentir ameaçado, tanto física quanto psicologicamente. Partindo do pressuposto de que os que não devem nada temem, é fácil concluir que o ataque é o melhor caminho para devedores e para os que buscam encobrir ações desastrosas com fakes.

Aliás, o idealizador e o provedor de fakes, além de covardes, revelam a pior faceta dos medrosos: o pavor – ênfase do medo – de serem descobertos. Para especialistas, o medo pode se transformar em uma doença (a fobia) quando passa a comprometer as relações sociais e a causar sofrimento psicológico. Pode parecer demasiadamente injusta essa afirmação, mas parece que é exatamente isso que está ocorrendo com o presidente da república em seus rompantes diários contra jornais e jornalistas do Brasil. Deve ter uma razão ainda desconhecida. É o mesmo medo que ele demonstra quando ataca integrantes do grupo LGBT, os que não rezam em sua cartilha, os que não querem o voto impresso e, sobretudo, o Ministério Público, o Judiciário e os que ele chama de “esquerdopatas”.

Não sabemos a real definição do neologismo. Deve ser o antônimo de “direitopata”. Talvez. Pouco importa, na medida em que não nos sentimos atraídos por nenhuma das duas correntes. Voltando ao fato, para o presidente e seus serviçais virou moda ou prazer orgásmico atingir com críticas inverossímeis ou xingamentos depreciativos a chamada grande imprensa, especialmente a Folha de São Paulo e o grupo Globo, de modo especial a TV Globo e alguns de seus apresentadores. Não sou globista, mas dizer que a emissora está mal das pernas porque ficou sem dinheiro público e, por essa razão, teve de demitir artistas e cortar salários de profissionais é rasteiro e covarde demais.

Lembremos todos que 2020 – o ano que não começou – foi atípico e obrigou empresários globalizados a se adequarem à nova ordem pós-pandemia. Como afirmam os inteligentes, não há mais tempo para perdularismos. A fase é de contenção até do arroz e do feijão. No mínimo, é pensar muito pequeno discorrer, sem fundamentos ou provas, sobre a saúde financeira da empresa de comunicação, uma das sólidas do país e que, parece, sobrevive sem tirar um tostão de pobres coitados que acreditam que, com uma oração mercantilista e sem fé, Jesus vai salvá-los de todos os males e, como um mil réis a mais, leva–los ao paraíso.

Dizer que a TV Globo se utilizava de recursos do BNDES para capitalização ou investimentos não é uma inverdade, embora seja sacana, porque pequenas, médias e grandes empresas brasileiras – e aí não importa em que ramo esteja – fazem o mesmo. Não temos conhecimento dos contratos, tampouco dos montantes, mas impossível acreditar que o império do bispo Edir Macedo, incluindo a TV Record, os grupos Bandeirantes e Rede TV, além do esperto, embora senil, Silvio Santos e seu SBT (fundado em agosto de 1981, ou seja em pleno período ditatorial, como a Globo) não tenham créditos ou débitos com o banco oficial de financiamento. Interessante é que eles nunca são citados e fazem o mesmo tipo de jornalismo da Globo. A diferença é que, especificamente nos dias atuais, a emissora dos Marinho é menos chapa branca.

Dar respostas sobre o desgoverno, a crise econômica, a ausência de vacinas e seringas, o descaso com os mais de 200 mil mortos de Covid-19, a falta de apoio e a respeito da soberba de ministros e da capacidade de, interna e externamente, criar fatos negativos para o Brasil realmente é muito mais difícil. Por isso, não é de se estranhar o mandatário da República estar preocupado com cortes nos vencimentos de Willian Booner, anunciar que ele ganha mais do que sua colega de bancada, Renata Vasconcelos, e “temer” pelo futuro de antigos e ótimos artistas dispensados do cast da Venus Platinada. Ora, com todo respeito aos globais que não tiveram contratos renovados, é a lei de mercado. Qualquer empresa, inclusive as do governo, age de modo idêntico.

Ainda respeitosamente, é fácil esconder os fatos. A maioria desses gigantes da teledramaturgia fazia, quando muito, uma novela inteira por ano e recebia salários muitíssimo acima da média brasileira. Claro que ganhavam bem porque mereciam e porque a Globo faturava alto com a audiência que eles garantiam. Tudo dentro da normalidade. Anormal é criticar demissões sem conhecer as causas. Os críticos esquecem que a solução do problema é extremamente fácil: basta realocá-los nas emissoras simpatizantes do modus operandis do presidente. Simples assim.

Aliás, as ex-coirmãs e agora inimigas do grupo criado por Roberto Marinho – um dos maiores defensores da Redentora – atuam da mesma forma e não há nada de errado nisso. Como não houve quando, depois de um rápido namoro, breve noivado e casamento relâmpago, o presidente Bolsonaro, a pretexto indivulgável, tirou Regina Duarte da Globo e a detonou 20 dias após ser nomeada para a Secretaria Especial de Cultura. Tudo indica que a atriz desembarcou no atual governo depois de estrelar as eleições de 2002. Para avivar memórias, durante horário eleitoral gratuito daquele pleito, Regina falou de esperanças e disse estar temerosa de que Lula esfarelasse com as conquistas do Plano Real. Apanhou lá e apanhou cá.

Nem Odorico Paraguaçu foi tão grosseiro com a imprensa “marronzista” e “fraudulenta” de Sucupira, a fictícia cidade baiana comandada por um prefeito corrupto e demagogo que não conseguiu sequer entregar sua principal promessa de campanha: o cemitério municipal. Qualquer semelhança é mera coincidência com o personagem criado por Dias Gomes e vivido, magnífica e inesquecivelmente, por Paulo Gracindo. Há diferenças e parecências entre um e outro. A exemplo do fascínio exercido por Bolsonaro sobre os fundamentalistas que acreditam em um monte de besteiras, Odorico era adorado pelas mulheres. Dono de retórica esquisita, mas inteligente, o prefeito de Sucupira comumente citava Platão, Rui Barbosa e numerosas outras personalidades, às quais atribuía suas frases sem nexo. Hoje, nem retórica ou nexo. Apenas cavalares palavrões e ameaçadora truculência. A esperança é 2022. Volte Odorico.

*Mathuzalém Junior é jornalista profissional desde 1978

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