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Brasil

Bolsonaro vive devaneios e esquece vacina

Wenceslau Araújo*

O governo de Jair Bolsonaro e seus seguidores reagem sempre que são cobrados ou questionados. Faz tempo essas cobranças e questionamentos são recorrentes. Realmente essa repetição deve ser uma “mercadoria” das mais chatas. Parece perseguição. E é, mas trata-se de acossamento ao que é bom, correto, sério, honesto e com retorno popular. O populismo, pelo contrário, deve ser alijado do processo governamental. Enfim, a imprensa canalha quer noticiar coisas boas. Então, os que detêm o poder têm o dever de produzir positividade, alegria, saúde, vacina e união entre a sociedade. Borracha alguma apaga o passado, mas uma caneta Bic comum escreve facilmente o futuro.

Esta semana, o presidente da República decidiu trocar o comando da Petrobras. Substituiu um técnico por um general, também técnico, mas general. Difícil acreditar que a preocupação maior tenha sido o contribuinte, o usuário de gasolina, óleo diesel e gás de cozinha. Potencialmente populista, Bolsonaro pensou prioritariamente em ficar bem com os caminhoneiros. Substituto de Roberto Castello Branco na presidência da empresa, o general Joaquim Silva e Luna parece tecnicamente muito capacitado. Entretanto, essa competência terá de ser mostrada aos investidores e acionistas minoritários da estatal. O mercado ficou ainda mais assustado quando o chefe do Executivo anunciou que fará novas trocas, inclusive no setor elétrico. Faltou anunciar mexidas e propostas concretas para a saúde, setor mais vulnerável e menos abençoado pelo governo.

Simpatizantes da esquerda, da direita, do centro ou de qualquer outra ponta decidiram esquecer o ceticismo e optaram pela vacina contra a Covid-19. Mesmo os mais radicais – aqueles que, usando as redes sociais, teimam em negar o vírus – atenderam apelos da consciência e recorreram aos postos de saúde ou levaram familiares para a imunização. Até prova contrária, esquerdopatas ou direitopatas são seres humanos, não são bestas e, por isso, temem a morte antecipada, se é que alguém morre de véspera. Pois é exatamente esse o ponto da uruca do governo. Sabe-se lá qual a razão, mas, desde o início da discussão sobre vacinação, Bolsonaro e Eduardo Pazuello não se entendem. Pior, não querem se entender.

Optaram pela Cloroquina e pela Ivermectina para combater o novo coronavírus, mesmo após infectologistas, pneumologistas e cientistas dos quatro cantos do mundo afirmarem que esses medicamentos são ótimos pra tratamento e profilaxia de malária e de vários tipos de infestações por parasitas, entre eles lombrigas, piolhos, sarna e ascaridíase, mas não tem eficácia alguma contra a Covid. Na sequência, cumprindo ordens do presidente, o ministro da Saúde minimizou a doença, politizou a campanha de vacinação e, desnecessariamente, criou um imbróglio político com o governador de São Paulo, João Dória, em torno da compra da CoronaVac, vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac e produzida aqui pelo Instituto Butantan.

Enquanto o governo patina, a pandemia não dá trégua. O resultado prático é o que estamos experimentando. O volume de infectados e mortos aumenta diariamente, os leitos em hospitais públicos e privados estão saturados, exatamente como afirmou há cerca de um ano o ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta. Hoje, além de espaços, faltam vacinas para imunização em massa e, o que é pior, os irresponsáveis, imbecis, genocidas ou, na melhor das hipóteses, ideológicos, permanecem nas ruas, contrariando todas as recomendações sanitárias, incluindo o uso de máscara, álcool em gel e distanciamento. Tudo bem que optem pelo livre arbítrio. Façam suas festas clandestinas, tomem porre de Ivermectina, mas tenham um mínimo de raciocínio e pensem no vizinho.

Deixem-me viver com saúde. Preservem seus pais, filhos, irmãos, cônjuges e afins. Aproveitem os drinks de Cloroquina, mas morram sozinhos. Respeitosamente, o Diabo os espera. Não esqueçamos que, desde o início da pandemia, o ministro Luiz Henrique Mandetta alertava sobre a necessidade de isolamento social e todas aquelas medidas de higienização, de modo que os casos de contaminação não aumentassem e fosse evitado o colapso dos hospitais. Esqueceram? Pois é. Chegamos ao caos graças a você que fez – e faz – pouco caso das sugestões de Mandetta. Se o presidente não tivesse se assustado com a sombra do ex-ministro, a saturação dos hospitais e a falta anunciada da vacina poderiam ter sido evitadas. Coisas de populista que temem a competência alheia. A resposta é pandemia em alta. Hoje, dia 21 de fevereiro, somamos 10.194.088 de infectados, 247.217 mortos e menos de 5% de imunizados.

Há um mês o Brasil registra média acima de mil mortes por dia. Portanto, não é competência da imprensa canalha escrever notas, matérias ou artigos favoráveis sobre atos e fatos absolutamente desfavoráveis. Aí seriam fakes, exatamente iguais àqueles produzidos pela turma do quanto pior melhor. Resta ao governo consolidar de vez a união com o Centrão e fazer o que ainda não conseguiu: produzir pautas concretas que beneficiem à totalidade da sociedade, preferencialmente as econômicas e sociais. O auxílio emergencial de alguns meses era uma ação imperativa e, em parte, foi determinada pelo Congresso para evitar que milhares também morressem de inanição. Se vamos demorar a voltar ao normal, pelo menos tentemos evitar que o anormal vire regra. O presidente precisa entender que ser pop é sinônimo de aparecer. A tendência de quem só pensa em aparecer é esquece das obrigações. É o que está acontecendo. Infelizmente.

*Wenceslau Araújo é jornalista

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