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Conflito de egos

Brasil dá partida para mais um triste e rejeitado show circense

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Foto/Imagem:
Mathuzalém Júnior* - Foto de Arquivo/Reprodução Amazonas Atual

Reclamar e resistir ao que já aconteceu ou a que está por acontecer, além de gerar conflitos e estresses, só prolonga o sofrimento. Didaticamente, é este o significado daquele antigo ditado popular o que não tem remédio, remediado está. Antigo e carregado de sabedoria, o provérbio não quer dizer apenas que não adianta tentar tirar as calças pela cabeça quando as coisas acontecem diferentemente do que gostaríamos. Em síntese, o verbo estar foi conjugado no presente do modo indicativo exatamente para dar mais consistência e intensidade a uma situação irremediável. Simples assim. E não adiantam choros, velas pretas, ameaças fictícias de suicídios, suspiros extremados, tampouco gritinhos enlouquecidos contra o que está posto. A corrida presidencial está no ar.

É que começa nesta terça, 16, a campanha eleitoral, também conhecida como circo dos horrores. São 12 chapas, com candidatos a presidente e a vice. Curiosamente, dos 12 postulantes, incluindo um recolhido à prisão domiciliar, dois têm chances reais, mas nenhum representa a maioria do eleitorado, carente de discursos honestos e realmente voltados para a solução dos numerosos problemas do povo brasileiro. Tudo indica que o eleito será diplomado e empossado muito mais por rejeição ao adversário do que por convicção ideológica. O cenário é claro: parte dos 156 milhões de eleitores vota em um porque desacredita na honestidade do outro. Em maior número, o restante opta pelo outro porque não admite a vilania e o negacionismo do um.

Triste, mas verdadeiro, o resumo da ópera é terrível. Até agora, faltando 47 dias para o primeiro turno das eleições, candidatos e eleitores ainda não se deram conta de que o país está falido, sem rumo e, principalmente, sem credibilidade alguma no cenário internacional. Por exemplo, no sentido oposto à fome de poder, não há propostas concretas para conter a fome de 30 milhões de brasileiros, muito menos para sinalizar positivamente para os cerca de 10 milhões de desempregados. Além das baboseiras em forma de panfletos, os candidatos bem que poderiam prestar atenção à letra da canção Filho do Dono, composta por Petrúcio Amorim e interpretada pelo paraibano Flávio José.

De versos simples, mas profundos, a música é um apelo ao eleitor envergonhado dos políticos que elegem: “O diário desse mundo tá na cara…O desespero no olhar de uma criança a humanidade fecha os olhos para não ver…Barriga seca não dá sono…Eu não sou dono do mundo, mas tenho culpa porque sou filho do Dono”. Escolhamos bem. De nada adiantará percebermos que, mais uma vez, nos consolidamos como absorventes de mais um ciclo menstrual indesejável. A verdade é que, por conta dos desmandos e do desgoverno que enfrentamos há três ano e oito meses, viramos pária internacional.

Continuaremos a sê-lo caso nossa escolha seja pela manutenção de grileiros, de criminosos travestidos de madeireiros e de garimpeiros ou por qualquer outro cidadão ou segmento que aja ao arrepio da lei. Que venham quente, pois estamos fervendo. Fora aqueles que apostam no quanto pior melhor, o povo que segue normas e que respeita regras decidiu que não aceitará lorotas do tipo promessas impossíveis ou mentiras espalhadas por meio de panfletos apócrifos atacando ou ameaçando este ou aquele candidato. É tolerância zero contra as fake news. A primeira tacada em nome da legalidade foi a decisão do YouTube vetando ataque às urnas eletrônicas, de modo a reduzir o raio de ação de determinadas candidaturas para veiculação de inverdades.

Entendemos como justos os planos de um e de outro presidenciável de ganhar essas e as próximas eleições. Injusto é o eleitor, figura principal do espetáculo, participar desse conflito de egos. A atração que está começando é quase circense. O problema é aceitarmos a figuração com o nariz de palhaço. Estejamos prontos para momentos de violência, de terror, de pânico e de deboches. Se é assim que tem de ser, que assim seja. O ideal é separar o joio do trigo e impedir que priorizem interesses particulares. Tudo dependerá do nosso voto. Ainda temos 47 dias para escantearmos a negatividade de nosso entorno e ajudarmos a disseminar a verdade sobre as igrejas evangélicas. Elas não serão fechadas com a vitória de um dos postulantes. Da mesma forma que, em 2018, não haveria distribuição de kit gays para escolas públicas caso Fernando Haddad ganhasse. Não houve tempo hábil de negar a desinformação e deu no que deu: quatro anos perdidos.

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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