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Mundo

Brasil deve olhar para a Venezuela como a briga de marido e mulher

Foto/Arquivo Notibras
Marc Arnoldi

Os últimos eventos protagonizados nas fronteiras venezuelanas, tanto com o Brasil e a Colômbia quanto pelos ares no aeroporto de Caracas, não deixam de lembrar areias movediças, aquelas onde cada movimento faz o sujeito afundar mais. E raros são os que parecem escapar da força de atração para baixo.

Como é de praxe em nosso sociedade dita pós-moderna, há um festival de fake news, de posicionamento ideológico inadequados, quando não obsoletos, de bravatas verbais inconsequentes e irresponsáveis e uma gritante falta de pragmatismo. Os campos ficam cada vez irredutíveis a medida que os argumentos são cada vez mais frágeis. Como sempre nesses casos, haverá provavelmente vencedores no final, ainda sem definição, mas o perdedor já é conhecido: é o povo.

Quando um governante fica feliz de ver queimar duas carretas de alimentos e medicamentos enquanto sua população foge da fome, não há mais comentários a fazer. Oficialmente, trata-se de um tipo de cruzada ideológica contra o “imperialismo americano”. É o que atrai certa parcela da esquerda brasileira, sempre pronta a queimar a bandeira estadunidense em praça pública.

Os inimigos de meu inimigo passando automaticamente ao estatuto de amigo do peito, os saudosos da guerra fria não hesitam em olhar carinhosamente para a Rússia, a China e até mesmo para Turquia do ultranacionalista de extrema-direita Recep Erdogan. Mas a ideologia proclamada de “libertação do domínio” de Tio Sam não resiste à hora dos negócios.

Nicolás Maduro, após gritar contra Donald Trump diariamente, senta em seu escritório para vender ao Diabo senão sua alma, pelo menos 50% de sua produção de petróleo. Os números são provenientes da Agência Internacional de Energia, com sede em Paris. Na semana de 11 a 17 de fevereiro, a Venezuela produziu 1,1 milhão de barris de óleo por dia, dos quais 558 mil foram vendidos aos Estados Unidos. O embargo americano, contra o qual os defensores do regime bolivariano gritam, se referiu desde o início a contas pessoais, em território americano, dos principais integrantes do governo e da PDVSA, a estatal produtora de petróleo. Somente nas últimas semanas o bloqueio foi ampliado a uma conta da PDVSA nos EUA que, segundo as autoridades americanas, era utilizada justamente pela cúpula de Caracas para fugir das sanções.

Outro argumento avançado seria o apetite norte-americano pelo óleo venezuelano. O maior fornecedor de petróleo americano hoje são os próprios americanos, que já são os maiores produtores do mundo, mas ainda não o suficiente para o seu voraz consumo. No ranking das importações, o Canadá supre mais de 40% das necessidades, seguido da Arábia Saudita (14%) e da Venezuela (9%). Mas do ponto de vista comercial, a Venezuela interessa muito mais aos americanos no sentido contrário: os EUA vendem a Maduro a nafta da qual ele precisa para sua gasolina, já que o óleo venezuelano é muito pesado e não pode ser utilizado sozinho.

Esta necessidade é um reflexo de decisões ainda do Governo de Hugo Chávez. O líder revolucionário usou a PDVSA como caixa para financiar seus programas sociais. Usou o lucro da empresa, e também sua capacidade de investimento, essencial no ramo. O resultado foi uma redução da produção de mais de 60% se comparado com os anos 90. Quanto ao refino, a também falta de investimento fez o nível cair a 23% de sua capacidade dos anos 2000. Por isso, após anos de gasolina subsidiada que fazia os brasileiros da fronteira visitar o país vizinho para encher o tanque por um punhado de centavos, a situação hoje é de escassez de gasolina em Caracas.

A situação poderia ser diferente tanto para os venezuelanos quanto para os brasileiros se uma série de acordos entre PDVSA e Petrobras, assinados em 2005 entre Chávez e o então presidente Lula, tivesse sido cumprido pelos venezuelanos. É a construção da refinaria Abreu e Lima, no Recife. Projetado justamente para ser um escoamento do pesado óleo venezuelano, o complexo pernambucano era orçado em US$ 2 bilhões, e a PDVSA podia entrar com até 40%. E entregar até 500 mil barris por dia. Hoje, Abreu e Lima, ainda não terminada, mal produz 100 mil/dia, já custou US$ 18 bilhões e a Venezuela nunca investiu um tostão.

Em 2011, a então presidente Dilma, em viagem a Caracas, evocou o assunto com Chávez. O presidente da PDVSA, Rafael Ramírez, até indicou estar em dia com as obrigações venezuelanas e ter remetido “uma mala de dinheiro em espécie”. Não se sabe se a afirmação era verdadeira, nem quem teria carregado a famosa mala.

Os adversários do imperialismo ianque preferem contar com a ajuda russa. Bem mais modesta, e, segundo as próprias informações de Moscou, paga pelo regime de Caracas. É possível que Putin tenha se comovido com a situação do povo venezuelano, mas é também preciso observar que seus olhos são mais atraídos pela situação da PDVSA. Uma das pouquíssimas operações ainda rentáveis do grupo venezuelano é a Citgo, a subsidiária no sul dos Estados Unidos, que tem três refinarias e uma rede de postos. A Rússia emprestou US$ 5 bilhões ao governo Maduro, mas exigiu uma garantia: 49,9% da Citgo. Em caso de não pagamento, o Rosneft que, como todos os outros grandes grupos russos, tem ligações políticas e empresariais com o Kremlin, estaria a uma passo de instalar-se no coração dos EUA. Um golpe de mestre.

O lamaçal venezuelano não é para amadores. Nem para ideólogos. A intervenção de forças estrangeiras nas últimas décadas ao redor do mundo não teve saldo positivo. Entre mentiras de Estado, negócios escusos e hipocrisia latente, a folha corrida dos Estados Unidos não é reluzente. Na realidade, é bem feia mesmo. Mas a da Rússia e da China está longe de ser branca. Apontar um destes três imperialismos como diabólico é santificar um ou os dois outros. E eles não merecem que terceiros entrem em guerra por eles. Venezuelanos são meros peões no tabuleiro. E brasileiros não têm nada a fazer nesta partida.

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