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Ovo e galinha

Brasil evolui na rota da corrupção da era Collor à de Lula-3

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Autor/Imagem:
João Zisman - Foto Editoria de Artes/IA

Existe uma velha discussão popular que atravessa gerações sem jamais encontrar resposta definitiva: quem vem primeiro, o ovo ou a galinha? Talvez a política brasileira tenha produzido sua própria versão desse dilema aparentemente insolúvel. O que nasce primeiro, os corruptos ou os corruptores?

A pergunta parece simples, quase folclórica, mas talvez ajude a compreender parte importante da formação das engrenagens políticas brasileiras nas últimas décadas. Porque, olhando em retrospecto, é difícil sustentar que os grandes escândalos nacionais surgiram apenas da ação isolada de indivíduos moralmente desviados. Em muitos momentos, o próprio ambiente político, econômico e institucional parecia organizado de maneira tão vulnerável, tão dependente de intermediações e tão condicionado à sobrevivência de alianças instáveis que a promiscuidade acabava surgindo quase como subproduto natural do sistema.

PC Farias foi, provavelmente, o primeiro grande operador moderno do poder brasileiro pós-redemocratização. Havia algo quase intuitivo em sua maneira de circular entre empresários, governo, arrecadação política e influência. O país ainda parecia analógico. O dinheiro tinha materialidade, os intermediários eram visíveis e as relações de proximidade política permaneciam relativamente identificáveis.

Mesmo assim, o escândalo Collor já revelava um padrão importante: empresários precisavam do poder, o poder precisava de financiamento e operadores surgiam como figuras centrais para conectar essas duas necessidades permanentes da República.

Pouco depois viria a CPI dos Anões do Orçamento, já no ambiente posterior ao impeachment de Collor, embora suas raízes fossem anteriores e mergulhassem diretamente na Comissão de Orçamento do Congresso Nacional. O esquema talvez tenha sido menos sofisticado financeiramente do que os escândalos que viriam depois, mas politicamente revelava algo muito importante: a existência de uma cultura permanente de intermediação, favorecimento, captura de verbas e sobrevivência parlamentar baseada em distribuição de poder.

Foi também naquele ambiente que o Centrão começou a consolidar sua lógica de funcionamento. Não exatamente como organização formal, mas como método político de sobrevivência e adaptação permanente. O Centrão talvez nunca tenha sido apenas um bloco. Sempre funcionou mais como uma cultura de poder baseada na circulação pragmática entre governos, influência congressual e preservação de espaços independentemente da ideologia dominante do momento.

O mensalão aparece anos depois, no governo Lula 1, já num ambiente mais profissionalizado, mais requintado. Marcos Valério talvez tenha simbolizado essa transição. O operador deixa de ser apenas arrecadador político improvisado e passa a funcionar como articulador sofisticado de fluxos financeiros, publicidade, influência e sustentação parlamentar.

O Brasil ainda conseguia compreender o mecanismo. O dinheiro circulava. Os operadores tinham rosto. A engrenagem podia ser desenhada num guardanapo. Talvez por isso o mensalão tenha produzido tamanho choque moral. O país ainda acreditava estar diante de um desvio excepcional do sistema.

O petrolão, também sob a égide petista, mostrou algo diferente. Marcelo Odebrecht simbolizava um outro estágio da relação entre poder econômico e poder político. Já não se tratava apenas de operadores conectando governo e Congresso. O sistema passava a integrar grandes cadeias empresariais, contratos bilionários, internacionalização econômica, engenharia institucional e estruturas permanentes de influência. A corrupção deixava de parecer artesanal e passava a operar numa escala quase industrial.

Ao mesmo tempo, o sistema financeiro brasileiro, os ambientes regulatórios, os fundos, os mecanismos de crédito e as estruturas de capitalização foram se tornando exponencialmente mais sofisticados. A política também acompanhou essa transformação.

Talvez seja exatamente nesse ponto que Daniel Vorcaro comece a produzir tamanho desconforto no ambiente político, econômico e institucional brasileiro.

Não apenas pelas dimensões do caso Master ou pelas investigações em curso, mas pela sensação de que o sistema chegou a um estágio em que política, mercado financeiro, influência institucional e circulação de poder passaram a operar quase dentro da mesma engrenagem.

Vorcaro parece representar uma geração diferente de operadores do poder brasileiro. PC Farias orbitava o Executivo. Marcos Valério transitava principalmente entre governo, Congresso e financiamento político. Marcelo Odebrecht simbolizava a força empresarial conectada ao Estado.

Vorcaro parece ter conseguido algo ainda mais sofisticado: tornar-se presença constante, direta ou indireta, em ambientes que atravessam mercado financeiro, política, sistema jurídico, agências regulatórias, relações institucionais e estruturas de influência distribuídas pelos três Poderes da República.

Talvez aí esteja a verdadeira transformação silenciosa do poder brasileiro. Os escândalos deixaram de depender apenas de circulação material de dinheiro ou contratos públicos clássicos. Passaram a frequentar ambientes de capitalização, crédito, ativos, fundos, operações estruturadas, relações regulatórias, influência institucional e conexões políticas muito mais difíceis de serem visualizadas pelo cidadão comum.

O mensalão ainda podia ser explicado numa conversa de mesa de bar. O petrolão já exigia organogramas. O ambiente que surge em torno do Master exige especialistas financeiros, interpretação regulatória, engenharia societária e leitura política simultânea.

Talvez seja justamente por isso que o país viva hoje uma estranha combinação entre excesso de informação e dificuldade crescente de compreensão real do funcionamento do poder. Tudo parece permanentemente exposto, comentado e investigado, mas quase nada é simples o suficiente para produzir entendimento coletivo duradouro.

O Brasil não assistiu apenas à evolução de operadores. Assistiu à sofisticação progressiva de um ambiente político e institucional permanentemente vulnerável à construção de relações promíscuas entre Estado, mercado, influência e poder.

E talvez seja justamente aí que a velha história do ovo e da galinha volte a fazer sentido. Depois de tantas décadas, já não parece simples distinguir quem nasce primeiro. Os corruptos produzem os corruptores ou os corruptores moldam os corruptos? Em muitos momentos, o sistema brasileiro parece ter aprendido a produzir ambos simultaneamente, alimentando uma engrenagem que se adapta, se moderniza e se sofisticou junto com o próprio poder.

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