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Poder sem barbárie

Brasil precisa de líderes lúcidos e capazes

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Autor/Imagem:
Misael Igreja - Foto de Arquivo

Relendo um dos muitos textos que recebo e aos quais nem sempre dou a devida importância, quase surtei com o escrito de um desses craques das palavras, mas que, por razões que a própria razão desconhece, preferem o anonimato. Em forma de alerta, o companheiro das pretinhas (as teclas da máquina de escrever e, agora, do teclado do computador) não se define como defensor de bandeiras da esquerda, do centro ou da direita. No entanto, com todas as letras, mostra de que lado está ao me lembrar e a quem mais leu seu apelo que não é sua intenção pedir amor por Lula da Silva, mas sim toda atenção ao horror da barbárie.

Como para quem sabe ler um pingo é letra, não tive dúvida a respeito do pedido. O que ele quer, eu e todos os brasileiros de bem também queremos: a lembrança do que fizeram com o Brasil quando tiveram poder nas mãos. Dependendo do resultado das eleições presidenciais de outubro, certamente voltarão a fazer e nós voltaremos a ser capachos de Donald Trump. Se alguém duvida, eu não. Só para avivar a memória dos que fingem ter esquecido, transformaram mentira em método, ódio em linguagem, ignorância em programa de governo e grosseria em identidade moral.

Querem mais? Sem provas e com interesses absolutamente escusos, o parceiro recorda os ataques às urnas, a tribunais, jornalistas, professores, à ciência e até a verdade. De modo franco, escancarado e terrivelmente evangélico, “fizeram da política um curral de fanatismo, da pátria um disfarce, da bandeira um pano para encobrir golpismo, misoginia, racismo, homofobia, devastação ambiental, desmonte da saúde, desprezo pela educação pública, crueldade contra os pobres e servilismo diante dos poderosos”.

Como nas piores repúblicas do planeta, vivemos uma época em que a grandeza política deu lugar aos deboches. Estimulando os líderes que não lideravam, os falsos profetas destilavam ódio, enquanto os que detinham a força deliberadamente substituíram a ordem e a paz pelo caos e pelo golpismo. Se hoje temos eficiência, paciência, capacidade e coragem para dar, vender e emprestar àqueles que desconhecem o termo soberania, há bem pouco tempo nos faltou ar, vacina e, sobretudo, decência. No passado recente, a sobra foi transformada em recalques e em humilhações contra mulheres, negros, gays, indígenas e pobres.

Minha narrativa não é sobre esculhambar a direita e enaltecer a esquerda, tampouco sobre elogiar Lula da Silva e questionar a família Bolsonaro. Falo sobre fatos inquestionáveis e ainda vivos na memória de todos os brasileiros que, direta ou indiretamente, lutaram pela democracia, consequentemente pela manutenção da lei e da ordem. Qualquer um dos mais de 200 milhões de brasileiros tem o direito constitucional de não gostar de Lula e de amar apaixonadamente o representante do bolsonarismo. O que precisamos entender como dever é a lógica de votar naquele que pode nos oferecer um futuro civilizado e sem barbáries.

Mais simples do que apostar e torcer pelo desgoverno é, no dia 3 de outubro, provar a nós mesmos que ainda sabemos distinguir o bom do ruim. Eu sempre entendo o outro lado, mas gostaria que o outro entendesse que não faz sentido manter o Brasil no mapa da fome, insistir no desemprego como mote para eleger falsos profetas e, principalmente, teimar que Cloroquina e Ivermectina são medicamentos eficazes contra todo tipo de doença, inclusive as da cabeça. Por isso, não peço a ninguém entusiasmo pelo candidato que defende o progresso. O que peço é limite para as paixões e coerência no voto. O Brasil de 2026 não precisa de lideranças fanáticas, cegas e surdas em forma de seitas, mas de líderes lúcidos e capazes de compreender que o governante que escuta seu povo terá sempre um governo novo.

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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais

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