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Prova dos nove

Brasil precisa de macho-alfa que evite aulas de Maquiavel

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Foto/Imagem:
Wenceslau Araújo

Leitor assíduo de bons textos, crônicas, frases e pensamentos, também não dispenso os jornais, sites e até bulas de remédio. Além de uma razoável imaginação, os escritos e escritores são minhas principais fontes de inspiração, principalmente em uma sexta-feira, dia de deitar na rede, esquecer o stress e deixar o vento refrescar. Às vezes, ela (a inspiração) surge em um sonho, em uma conversa de boteco, de fila de banco ou na recepção de uma clínica urológica, onde o bate-papo é sempre uma busca de força para o pior (ou o melhor) dos momentos de um macho alfa: a sonhada, apavorante, apaixonante ou a decepcionante dedada. Digo decepcionante porque, naquele instante de dor psicológica, tudo pode acontecer, inclusive nada. São casos e casos, a maioria transformada em anedotas de festinhas de aniversário de crianças.

Ruim é quando eles viram realidade. Fiquem tranquilos, pois meu objetivo não é detalhar minha última e recente consulta. Na verdade, tão recente que está bem viva em minha mente decentemente deturpada . A intenção é falar do poder como forma de comando e, claro, lembrar a autoridade, poderio e domínio de um urologista a partir do momento em que adentramos o consultório. De forma mais carinhosa, alguns lembram Jair Bolsonaro e Anderson Torres supostamente ordenando aos berros a vandalização da sede dos Três Poderes da República. Honestamente, não sofro com isso. Meu médico e amigo – nunca nos permitimos passar disso – é um profissional inquestionavelmente acima de qualquer suspeita.

A prova desta minha afirmação é subjetiva, mas palpável. Ele sempre inverte a posição do jaleco para que eu fique mais à vontade. Em tempo, o jaleco é fechado com zíper dupla face. Como conheço o tamanho da curiosidade de meus 17 leitores, devo explicar que essa inversão é natural quando o paciente precisa ter a certeza de que seu contato íntimo é somente com o dedo. Antes dessa confirmação, ainda que não se pense em nada promíscuo, o momento mais temido dos varões é a ordem para arriar a calça. Aliás, é justamente nesse átomo de segundo que a gente toma tento acerca do conjunto dos atributos e características físicas e sexuais próprias do homem.

Traduzindo, é quando nos damos conta do que queremos ou do que deixamos de ser. É a prova final dos nove. Não sei se há consentimento regimental ou cartorário para esse tipo de ação, mas a comoção nervosa durante o ato é algo que se assemelha a um estupro consentido. É o topo da vulnerabilidade sem limites, o que pode levar o másculo a ensejos inimagináveis. Também afirmo que jamais me permiti fugir dos meus limites de dominador e de condutor da manada. Apesar da comprovada imbrochabilidade, não nego que, sempre que procuro os serviços do meu urologista (que pode ser nosso), metaforicamente martelo na mente um pensamento de Albert Einstein: “A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”.

Obviamente que a mente é um paraquedas, isto é, só funciona se estiver aberta. Por isso, com a mesma rapidez do trancamento do boga, de imediato adapto a frase à possibilidade real e concreta de o dito cujo a ser tocado também perder a periferia original. Não há no mundo um único macho que não tenha medo de ser tocado e, principalmente, de gostar do toque. Pela terceira vez, reitero que passei batido por essa dúvida. No entanto, é impossível não dar razão a Maquiavel, autor de uma célebre frase sobre o poder. “Dê poder a um homem e descobrirá quem ele realmente é”. Se associarmos o incomensurável poder do urologista à preocupação com a dedada, descobriremos a razão do pavor de assumir publicamente essa ambiguidade existencial.

Graças a Deus e a perfeita condução do meu anjo da guarda, não sou um sujeito ambíguo. Pelo contrário. Nunca fujo do urologista, mas não o procuro com a insistência dos lordes. Ou seja, visito o doutor exclusivamente na necessidade ou no tempo estabelecido. Outra coisa impensável é insistir na segunda opinião durante a maledeta sessão Quero ter vida longa e saudável. Por isso, pouco importa o que digam. Que se calem os mexeriqueiros de plantão, porque ainda não precisei reduzir a periodicidade de minhas consultas. Apesar de já ter passado dos 21 anos, elas continuam anuais. Quanto à masculinidade, registrei em cartório o que quero escrito em minha lápide: Aqui jaz um macho alfa. Por favor, mije na cova ao lado.

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