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Brasil

Brasil caminha para o mar revolto do ódio

Wenceslau Araújo*

Pressionado, forçado ou obrigado a se render aos números e, como consequência, instado a criar o tal Comitê Anticovid, Bolsonaro percebeu, a contragosto da maioria dos apoiadores, que perdia fôlego nas ruas, no Congresso, no Judiciário, nas Forças Armadas e nos governos estaduais e municipais, mesmo entre aliados. Provas contundentes desse “emparedamento” foram as recentes sinalizações dos quartéis, o recado mais duro dos generais, o lockdown quase generalizado, o “pito” dos presidentes da Câmara e do Senado e duas derrotas seguidas no Supremo Tribunal Federal – a decisão sobre a parcialidade de Sérgio Moro em um dos julgamentos de Luiz Inácio e a rejeição à liminar contra governadores.

Entre ficar gritando sozinho para meia dúzia de fanáticos e tentar tirar o país do buraco negro em que está metido, a opção foi lógica e cartesiana, ou seja, como sua verdade é única e não pode ser posta em dúvida, demitiu quem incomodava. Não conheci pessoalmente o cidadão Jair Messias, tampouco o capitão Bolsonaro (na verdade, tenente). Ouvi falar dele somente quando foi julgado e absolvido pelo Superior Tribunal Militar (STM) por ocasião de sua quase expulsão. Soube que foi atleta, mas também desconheço essa faceta. Por isso, não escrevo mais do que essas poucas linhas sobre eles. Meu problema – e de boa parte dos brasileiros – é com o presidente Jair Bolsonaro, culpado por grande parte das mazelas do país nesses últimos dois anos, principalmente no item pandemia, que ele negou, nega, fez e faz pouco caso.

O paralelo do Brasil de nossos dias é com um avião lotado sobrevoando o Atlântico em meio a uma tempestade e pilotado por um comandante cego, surdo e mudo. Ou surge alguém com expertise para acionar o piloto automático ou todos teremos reduzidas chances de sobreviver. O retrato do país de hoje não será o de amanhã, muito menos o de 2022. Até lá, muita água ainda há de rolar nesse mar revolto e turvo de ódio que é a política brasileira. Embora tudo possa acontecer, inclusive nada, é nítido o quantitativo de nomes apagados no fichário de milhões de “seus” eleitores. Por ora, o que se vê é a popularidade despencando, a reeleição muito mais distante, o impeachment cada vez mais próximo e a lorota do golpe abortada bem antes de chegar às ruas.

Para quem não gosta de ser contrariado, a pior das derrotas de Bolsonaro ainda está por se confirmar: o emparedamento definitivo do Centrão, comandado pelos quase ex-aliados Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG). Presidente da Câmara, Lira é autor do recado mais claro, duro e até corajoso já repassado pelo Parlamento à Presidência da República. Usando como mote o negacionismo da pandemia, o deputado documentou que não vai mais tolerar “erros desnecessários e inúteis” que comprometam a situação do país. Pública e pessoalmente, Pacheco, presidente do Senado, foi além e, em nome da inoperância diplomática, recebeu a cabeça do chanceler Ernesto Araújo, menina dos olhos do grupo ideológico comandado pelo ensaísta Olavo de Carvalho, mas com atuação pífia no Ministério das Relações Exteriores.

Juntos, também ganharam o controle da negociação política, entregue à vestibulanda Flávia Arruda, deputada federal pelo PL do DF. O resumo da dantesca e finita novela bolsonarista é que, considerando a insatisfação do Legislativo com o principal inquilino do Palácio do Planalto, a sobrevivência política do comandante desidrata dia a dia, deixando sua Excelência no fio de uma navalha afiada e ensaboada. Iniciamos mais um mês de pandemia com estatísticas assustadoras. Sem explicação lógica, o novo ministro da Saúde prometeu vacinar, a curto prazo, de um a dois milhões de brasileiros diariamente. Oxalá fosse verdade, mas como acreditar em um governo que não consegue reduzir ou controlar o número de mortos e nada faz para auxiliar governadores com novos leitos nos hospitais superlotados?

Pelo contrário. Achou mais “prudente” excluir esses dirigentes do Comitê Anticovid apenas porque eles têm opiniões diferentes acerca da gravidade do vírus. Lembrando a máxima de Sócrates (“A verdadeira sabedoria consiste em saber que você não sabe nada”), o presidente da República deveria usar o aprendizado de seus quase 30 anos como deputado federal para saber que governar significa fazer concessões, dar um passo de cada vez, estar ao lado do povo e, na medida do possível, evitar se aliar simultaneamente a Deus e a Mamom. Além disso, poderia avivar a memória e lembrar da dificuldade que é vincular interesses de um grupo de parlamentares com tentáculos cada vez mais longos e afiados com os do povo cada vez menos esperançoso.

O Centrão não garantiu a nenhum outro mandatário que serviu (e foram muitos) mais influência presidencial sobre as demais instituições da República, entre elas as Forças Armadas e o Supremo Tribunal. É ilusão de menino achar que trocar meia dúzia de ministros para atender interesses pessoais garante sobrevida ou mesmo vida longa a um governante sem o uso da força. E essa parece uma hipótese bem distante da realidade. Nos preocupemos mais e sempre com a Covid-19, que é apenas um dos sintomas da doença que atingiu o mundo e deixou o Brasil na UTI. Portanto, nesta Sexta-Feira Santa nos apeguemos à fé, pensemos na dor alheia e imaginemos um país sem amarguras e ódios. Insensatez e hipocrisia não une povos, mas desfigura a já dividida sociedade brasileira.

*Wenceslau Araújo é jornalista

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