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Brasil sem valores pode desembarcar do mundo moderno

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Wenceslau Araújo - Foto Reprodução/Aberje

Características que nos diferenciam do restante dos seres vivos, os valores humanos estão relacionados principalmente à dignidade e à moral. Na prática, são normas de conduta que podem determinar decisões importantes e garantir que a convivência entre as pessoas seja pacífica, honesta e justa. Alguns teóricos definem como fundamentais 20 valores, entre eles a responsabilidade, a humildade, o senso de justiça, a empatia, a solidariedade e a educação. São indispensáveis, mas nada se compara ao respeito, que é a capacidade de ter em consideração os sentimentos das outras pessoas, e à honestidade, imprescindível para o homem, na medida em que pode influenciar todos os aspectos da vida do semelhante.

Por minha conta e risco também incluo nessa lista utópica para o Brasil a moral e a ética. A primeira representa os hábitos e costumes de uma sociedade, enquanto a segunda é um comportamento moral individual racionalizado. Didaticamente, ética é um ramo da filosofia que lida com o que é moralmente bom ou mau, certo ou errado. Enfim, passaria algumas semanas discorrendo sobre o tema. No entanto, o que realmente chama a atenção é a ausência quase absoluta desse princípio humano entre nosotros. Infelizmente, alcançamos uma quadra em que sobe diariamente o preço a pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo.

Como previsto nos antigos almanaques de filosofia, chegamos ao mundo da inversão de valores, no qual é preciso ter para ser. Pior é ouvir diariamente o bordão oficial Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Bonito, mas apenas mais um das numerosas fake news distribuídas a rodo por quem o criou ou mandou criá-lo. O descrédito da afirmação me remete à sapiência do escritor, poeta e jornalista gaúcho Mário Quintana, de cujos inquestionáveis versos extraí essa pérola: “Se eu acredito em Deus? Mas que valor poderia ter minha resposta, afirmativa ou não? O que importa é saber se Deus acredita em mim”. Se vivo fosse, certamente o próprio Quintana faria muxoxos acerca da insustentável citação, usada como esfarrapada bandeira de um governo que ainda está por existir.

Como em qualquer lugar do mundo, a sociedade acaba sendo reflexo dos governos e dos governantes. É claro que as mazelas nacionais – a maioria já considerada cancro incurável – são antigas. Entretanto, inegável que elas potencializaram de alguns anos para cá. Impressionante, mas passamos a achar normal o descaso como médicos, enfermeiros e professores concursados tratam seus pacientes e alunos em unidades públicas. Pior é o silêncio do povo diante da inércia dos governantes. Normalmente eleitos com discursos que beiram a comédia mambembe, poucos (talvez nenhum) dos atuais governadores tratam com a devida seriedade direitos sociais como a saúde, a educação, o trabalho, a segurança e a previdência social de seus eleitores. Imagina o resto.

A decepção é diária. A inversão de valores chegou onde não deveria. São deputados que não respeitam instituições, parlamentares que se beneficiam de emendas fantasmas, além de governadores, prefeitos, senadores e até ex-presidentes da República presos aos borbotões. Como faltam exemplos em cima, embaixo sobram maracutaias. A última delas foi a prisão de uma delegada “pop”, envolvida no bolso e na alma com milicianos e contraventores. No Rio de Janeiro, em São Paulo e em Brasília, capital do país do faz de conta, a regra é grupelhos de policiais e ex-policiais militares se envolverem com milícias e com grilagem de terra. Parece que nada disso incomoda mais a sociedade.

No pior dos cenários, nossos governantes, com seus falsos valores e palavras ilusórias transformaram em fatalidade o que eles preferem ignorar. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores e conceitos. Autenticidade, conhecimento e liberdade de expressão viraram crimes. É da natureza humana somente perceber o valor das coisas quando elas são perdidas. Por tudo isso, ou pensamos politicamente melhor ou ajudaremos o Brasil a desembarcar do mundo moderno. Bons valores alicerçam a boa conduta. Faço minhas as palavras de Albert Einstein: “Não tentes ser bem-sucedido. Tente antes ser um homem de valor”.

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