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Ainda é cedo

Brasil tenta voltar ao normal apesar do risco da variante Delta

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Foto/Imagem:
Beatriz Jucá/El País - Edição de Bartô Granja

Djs na orla da praia, polos gastronômicos, apresentações culturais e campeonatos de futebol pelos bairros. As imagens de um passado já distante, pré-pandemia de covid-19, podem voltar ao presente novamente dentro de um mês no Rio de Janeiro. Em uma espécie de decreto do fim da pandemia, com data marcada para setembro, a Prefeitura planeja quatro dias de festa. No Ceará, o novo normal já começa a se esboçar: casamentos, aniversários e eventos sociais agora podem comportar até 100 pessoas, ainda que apenas os anfitriões estejam autorizados a tirar suas máscaras durante as fotografias —e dançar esteja proibido.

Em São Paulo, onde morrem em média 300 pessoas por dia pela doença, a partir de 17 de agosto as restrições ao comércio devem chegar ao fim. Ancorados na queda de indicadores da pandemia e na ampliação da vacinação, gestores brasileiros começaram a relaxar as medidas adotadas no último um ano e meio para conter o vírus. E o setor comercial já se preparar para voltar a receber seu público habitual. Mas a ansiedade com o retorno à normalidade preocupa especialistas, em um país que ainda registra diariamente uma média de 1.000 mortes pelo coronavírus e onde novos casos voltaram a crescer, segundo o Observatório Covid-19 da Fiocruz. O alerta vem pela propagação da variante delta, considerada muito mais transmissível que as anteriores, segundo apontou o principal órgão de saúde norte-americano em um relatório confidencial vazado nesta quinta-feira.

De acordo com o documento interno do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, a variante, detectada no Brasil pela primeira vez em maio deste ano, no Maranhão, parece causar mais doenças graves do que todas as outras versões conhecidas do coronavírus, ainda que vacinados estejam bem protegidos. É, ainda, mais transmissível que os vírus do Ebola, da gripe espanhola ou da varíola. E tão transmissível quanto o da catapora. O órgão não apresenta dados detalhados no documento, mas aponta que a quantidade de vírus em uma pessoa infectada com esta cepa é 1.000 vezes maior do que nos afetados pela cepa original do Sars-Cov-2. E tanto vacinados quanto não vacinados infectados podem transmiti-lo, embora os imunizados em menor frequência.

O documento sugere que o passo imediato é “reconhecer que a guerra mudou” e recomenda a volta de uso de máscaras e o reforço na vacinação. Os Estados Unidos, que lutam contra um número considerável de pessoas que recusam se vacinar, já voltou a recomendar o uso de máscaras em lugares fechados, mesma medida já tomada em Israel. Os Países Baixos também voltaram a fechar as discotecas, cuja abertura havia se tornado um símbolo da liberdade recuperada.

No Brasil, o avanço da vacinação vem provocando uma sensação maior de segurança à população. Em várias cidades do país se espalham promoções de bares com descontos para quem apresentar o comprovante de vacinação. E há empresas liberando a primeira parcela do décimo terceiro para os funcionários que já tomaram a primeira dose. Os que sentiram diretamente os efeitos da quarentena com a impossibilidade de trabalhar pelas restrições estão animados com o retorno. “A saúde vem em primeiro lugar, mas o setor de eventos estava num alto nível de desespero pela indecisão”, conta a celebrante de casamentos Sarah Coelho. Ela atua no Ceará, que nesta semana autorizou a realização de eventos sociais e corporativos com capacidade máxima de 100 pessoas em locais fechados e de 200 em ambientes abertos.

A pandemia lhe tirou a previsibilidade característica do setor, com casamentos geralmente planejados com meses de antecedência. “Mesmo para quem tem muita consciência [da pandemia] estava difícil de estabelecer uma rotina, um planejamento financeiro e as prioridades”, conta. Com a decisão de liberar os eventos, ela diz que diminuiu a tensão com fornecedores e clientes. “É um ânimo, um encorajamento grande, a retomada. (…) A sensação é que abriram as torneiras. A vacinação aumentou o ritmo, e as pessoas se animaram. Isso repercutiu nos pedidos de orçamento”, conta. Coelho acredita que isso deve perdurar enquanto durar o decreto estadual ―até o momento, as normas valem até 8 de agosto, mas o governador estuda medidas após a identificação de quatro casos da variante delta nesta semana no Estado e ainda decidirá se muda ou não as regras. “A gente torce para que as pessoas realizem suas festas, mas com a consciência que a pandemia não acabou”, afirma Coelho.

O Brasil identificou infecções com esta cepa em 10 Estados e no Distrito Federal. O país conseguiu acelerar a vacinação com a primeira dose, mas a cobertura vacinal completa ainda é baixa: apenas 23% da população está totalmente imunizada ou com as duas doses da vacina ou com a dose única da vacina da Janssen. “A preocupação com a delta tem que ser levada em conta para repensar as reaberturas. Não é o momento adequado para reabrir porque não sabemos o quanto ela está circulando e a vacinação no Brasil ainda está baixa”, afirma a microbiologista Natália Pasternak. Ela aponta que a imunização deve melhorar a partir de agosto e setembro, com a chegada de novas remessas de imunizantes, mas opina que reabrir agora pode ser precoce. “Precisamos manter e, no caso do Brasil, até intensificar as medidas preventivas. Os números em queda são um entusiasmo a ser dividido com a população, mas com cautela para evitar uma nova onda”, explica.

A cientista e epidemiologista Denise Garrett diz que as vacinas continuam protegendo contra o coronavírus, mas a delta tem um “potencial devastador” entre os não vacinados e, por isso, acredita que este não é o momento de flexibilizar. “Eu sei que está todo mundo cansado, mas pelo que tenho visto aí é quase um: estamos livres da pandemia”, diz. “Temos uma nova variante se instalando no país. Sabemos que ela tem capacidade de escapar à imunidade natural. E temos um país que vai ser um mar de suscetíveis porque a cobertura com duas doses está muito baixa. Temos quase 80% da população suscetível”, destaca.

“É algo que pode colocar em risco até o esforço da vacinação”, alerta. As vacinas funcionam, mas nenhuma delas tem eficácia de 100% na vida real. Garret usa uma metáfora de Pasternak para explicar: é como se a vacina fosse um goleiro. Mesmo se ele tivesse a eficácia de 95% e conseguisse pegar 95% das bolas, se começa a vir muita bola, vai ter muito mais gol. À maior transmissão da delta, soma-se o aumento de breakthroughs ―ou seja, a infecção mesmo em comunidades vacinadas. “A proteção para infecção diminuiu com a delta, embora se mantenha para casos graves e óbitos”, salienta.

É preciso, além da vacinação, adotar outras medidas não farmacológicas para combater a delta, como uso de máscaras e distanciamento social. Garret diz que, mesmo em locais que não tomaram muitas medidas para frear a delta, ela provoca uma onda exponencial forte, mas de curta duração. “Ela é tão transmissível que esgota os suscetíveis rápido”, aponta. As pesquisadoras defendem que não é o momento para baixar a guarda. “Já vimos os estragos em outros países. Mesmo com a vacinação avançando no Brasil, não podemos deixar o entusiasmo se sobrepor à cautela”, finaliza Pasternak.

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