Colheita de Vorcaro
Brasil vive dilema entre ouvir e silêncio sombrio
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Dizem os velhos cronistas que certos sobrenomes já nascem com vocação agrícola. Não necessariamente para plantar milho, feijão ou trigo — mas para cultivar outras lavouras, bem mais sofisticadas. O sobrenome Vorcaro, de origem italiana, por exemplo, significa “cultivo”. E cultivo, como sabemos, é uma arte antiga.
Na Idade Média, cultivar era simples: arava-se a terra, lançava-se a semente e esperava-se a colheita. Às vezes vinha uma boa safra; outras vezes, gafanhotos. Nada muito diferente da vida política e financeira moderna, diga-se de passagem.
Mas o tempo passou, os tratores evoluíram, os fertilizantes ganharam nomes impronunciáveis e a agricultura também se modernizou. Hoje, além da terra, cultiva-se algo muito mais fértil que permita colher amizades estratégicas.
E é aí que começa a verdadeira lavoura, porque amizade bem cultivada cresce como parreira italiana, dessas que se estendem pelos muros, atravessam quintais e, quando menos se espera, já estão dando sombra na casa do vizinho.
No modelo político-capitalista tupiniquim, há quem plante tomates, os que preferem trigo e aqueles que plantam relações silenciosas. O silêncio, aliás, é um dos fertilizantes mais poderosos já descobertos pela civilização. Diz o velho provérbio que “quem tem boca vai a Roma”; os sábios, porém, acrescentam que quem mantém a boca fechada pode chegar ainda mais longe.
É nessas horas que a prudência vira ouro. E ouro, convenhamos, sempre teve seu valor, mesmo que em certos ambientes, seja apenas um metal modesto quando comparado à riqueza de uma boa caverna cheia de segredos. Lembram de Ali Babá? Pois é.
A diferença é que, na história clássica, bastava dizer “Abre-te, Sésamo!” para que a montanha revelasse seus tesouros. Hoje, contudo, o processo é um pouco mais complexo, uma vez que envolve reuniões discretas, planilhas incompreensíveis e uma quantidade impressionante de gente que prefere conversar em voz muito baixa.
Nada de errado nisso, claro. Mesmo porque, silêncio também é uma forma elevada de comunicação. Aliás, dizem que, quando bem cultivado, o silêncio pode render colheitas extraordinárias. Não se trata de esconder nada, longe disso, mas apenas de respeitar o antigo princípio da diplomacia universal, ao definir que nem tudo que se sabe precisa necessariamente virar manchete no mesmo dia.
E assim segue o grande campo nacional. De um lado, especialistas tentando entender os números. De outro, curiosos tentando entender as amizades. E no meio disso tudo, uma imensa plantação de versões, suspeitas, teorias e cochichos.
No fim das contas, talvez o velho significado do nome esteja correto. Porque Vorcaro é cultivo. E cultivar, como qualquer agricultor sabe, exige paciência, discrição e uma certa habilidade para saber quando plantar, quando colher e quando simplesmente deixar a terra em silêncio.
Porque, às vezes, o segredo da boa colheita não está no que se planta. Está no que se guarda dentro da caverna, salvo um intempestivo ‘Abre-te, Sésamo’.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras
