Curta nossa página


Medo de quê?

BRB deixa explicações da crise com Banco Master atrás de portas fechadas

Publicado

Autor/Imagem:
Antonio Eustáquio Ribeiro - Foto de Arquivo

No dia 22 de abril, o Banco de Brasília realizou uma assembleia virtual que, em tese, serviria para discutir o aumento de capital — aquele remédio amargo, porém inevitável, diante de uma hemorragia financeira provocada pelas nebulosas relações com o Banco Master. Na prática, porém, o encontro soou menos como um exercício de transparência e mais como uma sala com luzes piscando e portas que se fecham sozinhas.

A crise não nasceu ontem. Ela ganhou corpo quando vieram à tona as operações que colocaram atrás das grades o ex-presidente Paulo Henrique Costa e o controlador do Master, Daniel Vorcaro. Os dois são protagonistas de um enredo que mistura cifras bilionárias, decisões questionáveis e uma governança que parece ter perdido o manual no caminho.

Diante desse cenário, seria natural esperar que o banco abrisse as janelas, deixasse o ar circular e chamasse todos à mesa. Mas não foi bem isso que aconteceu. Dois acionistas minoritários, devidamente inscritos, ficaram do lado de fora. Coincidência ou conveniência, ambos tinham algo em comum: ligação direta com o Sindicato dos Bancários, que desde 2024, vem soando o alarme sobre a estranha dança entre BRB e Master.

Não se trata de figurantes. Um deles é funcionário ativo e dirigente sindical; o outro, aposentado, também com histórico na entidade. Compraram ações não para brincar de mercado, mas para exercer o direito básico de acompanhar, questionar e votar, ainda que suas posições fossem atropeladas pelo rolo compressor do controlador, o Governo do Distrito Federal.

Mas nem isso foi possível. Um sequer conseguiu entrar. O outro entrou… e foi gentilmente “expulso” da sala virtual. Problema técnico? Talvez. Mas, dois, ao mesmo tempo, com perfis semelhantes e acessos distintos? Aí já não parece falha e sim um roteiro previamente escrito.

E quando o roteiro começa a ficar previsível, surgem as perguntas incômodas. O que havia de tão sensível naquela assembleia que justificasse portas fechadas? Por que justamente vozes críticas – ou, no mínimo, independentes – ficaram de fora? O banco, que clama por confiança, decide selecionar quem pode assistir ao espetáculo?

No pano de fundo, paira a sombra política. As operações que levaram ao colapso não aconteceram no vácuo. É difícil acreditar que decisões desse porte tenham sido tomadas sem conhecimento em níveis mais altos da administração pública. E, ainda assim, o silêncio segue como política institucional.

O BRB vive um momento em que deveria buscar unidade. Contudo, isso não se constrói com filtros seletivos nem com assembleias que mais parecem clubes privados. Transparência não é favor. É obrigação, especialmente quando o dinheiro em jogo é público.

Resta saber se a atual gestão quer, de fato, reconstruir a credibilidade do banco ou apenas administrar a crise dentro de uma bolha confortável, onde perguntas incômodas não entram e respostas, convenientemente, não saem.

……………….

Antonio Eustáquio é correspondente de Notibras na Europa

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.