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Patrocínio e publicidade

BRB vive como uma cabra raquítica na região do Cerrado

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Editoria de Imagens/IA

O Tribunal de Contas do Distrito Federal está colocando o Banco BRB entre a cruz e a espada, com a decisão do conselheiro Márcio Michel de cobrar explicações sobre investimentos em patrocínio e publicidade, uma área altamente explosiva. O debate aberto na Corte de contas dos gastos de uma instituição que vive na mira de três decisões drásticas (intervenção, federalização ou até mesmo liquidação) deposita no colo do presidente Nelson Souza um dilema que vai bem além de um simples questionamento contratual. Trata-se, na verdade, de um teste concreto sobre os limites da atuação de bancos públicos em contextos de incerteza financeira e de crescente escrutínio institucional.

O processo nº 00600-00003491/2026-10-e aberto no TCDF para investigar um contrato milionário relacionado a uma sala VIP no Aeroporto Internacional de Brasília, levanta uma questão que deveria ser central em qualquer gestão pública. Afinal, qual é o limite entre estratégia de marketing e uso responsável de recursos públicos? Não se trata de negar a importância da comunicação institucional ou do posicionamento de marca, porque bancos, inclusive públicos, competem por espaço, clientes e relevância. O problema surge quando essa lógica de mercado parece se sobrepor aos princípios que regem a administração pública.

O alerta do Tribunal nesse ponto, que tem prazo de validade até a segunda, 20,  ganha relevância ao exigir que o BRB comprove a viabilidade econômica, o retorno institucional e a adequação do gasto ao interesse público. A cobrança de Márcio Michel, portanto, não está apenas cumprindo um rito formal, mas questiona, na prática, se há coerência entre a realidade financeira do banco e suas escolhas estratégicas. Em um cenário marcado por desconfiança e maior sensibilidade do mercado após episódios recentes, fruto do chamado caso envolvendo o Banco Master, decisões dessa natureza deixam de ser meramente administrativas e passam a ter impacto direto na credibilidade institucional.

Outro aspecto que merece atenção é a estrutura por trás desses contratos, um velho vício herdado do ex-presidente Paulo Henrique Costa que seu sucessor manteve com gestos seletivos. Documentos públicos indicam a atuação recorrente de empresas como CLX Serviços de Publicidade e Propaganda, BCA Propaganda Ltda, Agência Um e Nosotros Live Marketing no ecossistema de marketing do BRB. A presença dessas empresas, por si só, não representa irregularidade, mas evidencia um modelo de execução que pode envolver múltiplas camadas de intermediação. É aí, segundo interpretação de Márcio Michel, que residem alguns dos riscos mais relevantes.

No mercado publicitário comenta-se que quando contratos públicos milionários passam por diferentes níveis de execução, abre-se espaço para o aumento indireto de custos, para a perda de transparência na formação de preços e para a dificuldade de aferir, com precisão, o retorno do investimento. Em outras palavras, quanto mais complexa a cadeia, maior a necessidade de controle, e, paradoxalmente, maior o risco de opacidade. Em contratos de grande porte, como o que está sendo analisado, esse não é um detalhe técnico, mas um ponto central. Mesmo porque, além de uma Sala Vip, há também uma grande biruta sem direção instalada em uma arquibancada colorida de vermelho e preto. E somados, os casos ultrapassam a casa dos 150 milhões de reais.

Há ainda um problema mais sutil, porém igualmente importante. É quando entra em cena um possível desvio de finalidade. Porque, pelas leis que regem o mercado, patrocínios realizados por bancos públicos não podem ser tratados como simples ações promocionais, mas precisam demonstrar, de forma clara e objetiva, que atendem a um interesse público, ainda que indireto. Se não seguir essa linha, correm o risco de serem interpretados como iniciativas voltadas mais à visibilidade institucional, motivada pelo ego dos seus dirigentes, do que à efetiva geração de valor para a sociedade.

Nesse contexto, a ausência inicial de informações detalhadas sobre contratos, intermediários e critérios de escolha reforça uma fragilidade recorrente na gestão pública, definida como dificuldade de tornar plenamente transparente a cadeia decisória. E transparência, nesse caso, não é apenas uma exigência formal, e sim condição essencial para a legitimidade do gasto.

O jogo que o Tribunal de Contas quer entender não é apenas a regularidade de um contrato específico, mas a forma como instituições públicas lidam com recursos em momentos de maior pressão e vigilância, principalmente quando os acordos são fechados mediante contratos emergenciais com as agências de publicidade, marketing e patrocínio. O BRB expõe, assim,o velho dilema sobre até que ponto é legítimo investir em imagem e posicionamento quando há questionamentos sobre a solidez e a prioridade desses gastos.

A resposta, como costuma ocorrer na administração pública, nunca é simples ou imediata. Caberá ao Tribunal de Contas aprofundar a análise e ao próprio BRB demonstrar, com dados e transparência, que suas decisões foram pautadas por critérios técnicos e alinhadas ao interesse público. Mas, independentemente do desfecho, o episódio já cumpre o papel relevante de recolocar no centro do debate a necessidade de coerência, responsabilidade e clareza na gestão de recursos públicos.

E como o povo e o mercado financeiro vivem tempos de desconfiança e de maior exigência social, não basta que o gasto seja legal. É preciso que Nelson Souza prove a Márcio Michel, até as vésperas dos 66 anos de Brasília, que o dinheiro jogado abruptamente na publicidade e patrocínio seja compreensível, justificável e, sobretudo, necessário. Se não for assim, o jogo fica perigoso. O bicho vai pegar e alguém será obrigado a colocar as barbas de molho como uma cabra que anda perdida pelo Cerrado.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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