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Estrangeiro

Buenos Aires é aqui

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e foto

“O arrabalde em meu peito persiste e se demora; Buenos Aires, a rua que o sol doura.
É o bairro que não é teu nem meu. O que ignoramos e amamos.”
(Jorge Luiz BORGES, “Fervor de Buenos Aires” – 1923)

Sentado num café à beira do rio, chega o cara e senta:

— Tio, te conheço da Guarda do Embaú, lá naquela merdinha de SC no Brasil.

Respiro, levanto a cabeça, abro os ouvidos e o convido para sentar, embora ele já o fizera.

— Você também tá exilado?

Respondo em monossílabo:

— Não.

O cara acende um cigarro e devolve:

— Sei… Tá disfarçado, escondido. Eu também tô nessa “trip”.

Mantenho silêncio como forma de indiferença, mas ele volta à carga:

— Aqui é “limpo”. Com o Milei a gente tá seguro. Você também fugiu? Eu vazei por Foz: Paraguai e depois direto a Buenos Aires. Perdi uma grana pra comprar os meganhas da fronteira com a Argentina, porém deu tudo certo.

Mudei minha postura e lembrei que ainda sou um jornalista, daqueles com alma de repórter.

— Nossa, que barbeira! Conta mais.

O carinha sente confiança, exilado pois já me enxerga também como um “exilado perseguido pelo careca do STF brasileiro”.

— Logo que cheguei foi foda! Uma garota de cabelos verdes me encarou aqui no cais e disse: “Ei, bólido de merda… tais perdido?”. Eu disse que sim. E ela mandou: “Si, conosco outros macaquitos come usté”. E me levou para uma biboca atrás do Caminito tão apertada que para peidar um tinha que sair do cubículo. Sobrevivi.

Narrativa interessante especialmente para quem está por dois dias em Buenos Aires esperando conexão para Santiago do Chile em plena greve dos aeroviários.

O papo rolou até o começo da noite.

— Cara, tenho de ir. Compromisso agora e foi um prazer te conhecer — disse eu após pagar a conta da cafeteira.

— Não… Vem comigo que vou te mostrar uns amigos, “gente de bem”, que vivem também por aqui.
Pensei, e o meu lado repórter falou mais alto. Fui.

Num piscar de olhos lá estava eu no meio de uma passeata na Plaza de Maio a favor do governo de Milei e fugindo dos peronistas irados junto com os “barra bravas” da torcida do Boca Juniores.

Pauleira total.

Já altas horas terminamos num desses botequins “Cu do padre”, “Sujinho” tão meus conhecidos dos anos de ditadura em São Paulo nos anos 70.

— Ok. Daqui tu pega um táxi e vai direto pro aeroporto. Não marca bobeira.

Entendi a instrução do “exilado bolsonarista”, apesar de débil e tanço, solidário de alguma forma.

Antes de ir, o carinha que já conhecia a espelunca portenha gritou:

— Ei, Juan… Manda aquele miojo especial.

Dez minutos após veio o prato que para mim ficaria como inesquecível: miojo com bacon frito coberto com salsinha, cebolas e alegria, regado com azeite verde e flambado no rum.

— Esse é especial. Dei o nome de Mito, em homenagem ao Capitão.

Comi como os deuses.

Depois de me despedir agradecido, peguei um táxi até o aeroporto. Conexão resolvida, voltei ao Brasil.

Tempos doidos: exilado com um ultradireita. Exilado sem ser, nem de direita e nem fugitivo.

Certas vezes, o destino trama com os fatos e nos pregam desafios dignos de crônicas inverossímeis.

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Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador e viandante de estradas destrambelhadas. Vive na Guarda do Embaú, litoral de SC.

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