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Voto na democracia

Caminhada de decepções e contratempos está no fim

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Foto/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto de Arquivo

Eu voto na democracia. Antes apenas uma frase de efeito, a afirmação passou a ser mantra automática do amanhecer de todos os verdadeiros patriotas. É o inverso daquele bordão dos mestres de cerimônia dos circos que insistem em se manter de pé. Precedendo o palhaço, figura de proa de qualquer lona, normalmente o apresentador abre o espetáculo afirmando que o circo chegou e que hoje tem marmelada. Passados três anos e oito meses da banalização administrativa, da vulgarização política e do fracasso do Brasil acima de todos, o lugar-comum finalmente foi substituído pela necessidade de clichês sem porretes ou bordunas.

Sinônimo de Jair Messias e de Centrão, a marmelada azedou e virou queijo coalho. Além de ótima fonte de proteínas e de vitaminas, o coalho integra a lista dos alimentos considerados probióticos, pois contêm bactérias que ajudam a regular a flora intestinal, combatendo problemas como prisão de ventre. É justamente o antídoto que faltava para facilitar a vida privada dos que votam na democracia. Cansados de cantilenas ideológicas desrespeitosas e vazias, fartos de intolerâncias odiosas e convictos de que o mal está na raiz, eles precisavam expelir o monte de excrementos produzidos pelo governo (?) do nojo ao povão e da personalização de símbolos nacionais que são de todos.

A caminhada de decepções e contratempos está por um fio. No entanto, ela só terá fim quando, lutando contra a dor temporária, optarmos pela felicidade plena. Está em nossas mãos o poder de nos libertarmos da prisão, do ódio, das ameaças e dos xingamentos. Ainda não sei o que nos espera, o que está por vir. No entanto, o que salta aos olhos como bem cristalino é que o amor está no ar. Vamos aproveitá-lo. É de bom alvitre evitar sofrimentos de véspera. O tempo sempre será o senhor da razão. Por enquanto, é salutar entender que é um direito de qualquer cidadão eleger quem ele quiser.

Vale até personagens que até bem pouco tempo frequentavam páginas nada alvissareiras. Na verdade, por demais comprometedoras, apesar dos indicativos de candidez. Ninguém é perfeito, assim como todos têm direito a uma segunda chance. A presunção de inocência em questão é diametralmente oposta à robustez de fatos que antecipam provas sobre o buraco para o qual estamos sendo levados. Como naqueles anúncios em que jogadores de búzios prometem recuperar empregos e amores em uma semana, o (des)governo Bolsonaro jurou acabar com o país em quatro anos, isto é, após um único mandato.

Não conseguiu – e não deve conseguir – porque não contava com a astúcia de parte do mesmo povo que acreditou em suas mentiras. Falou demais, deu bom dia a cavalo e acabou morrendo pela boca no primeiro 7 de Setembro em que saiu às ruas para golpear a nação. Certamente tentará de novo. Mais uma vez esbarrará na mediocridade de seus operadores do golpe e na auto confiança readquirida do brasileiro. Antes acabrunhado pelo vai e vem do noticiário de extremos, o eleitor, principalmente aquele desnudado de fanatismos, desceu do muro e parece definitivamente decidido pela democracia. Sinto isso a cada novo dia, a cada nova semana, a cada novo disparate do presidente.

A convocação para a última saída às ruas no próximo 7 de Setembro gerou uma reação que alarmou as bases da campanha de Jair Messias. Refiro-me à Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito. Ela será lançada em 11 de agosto durante evento na USP, com participação de banqueiros, artistas, políticos, professores, alunos, ex-alunos e ativistas da Faculdade de Direito de São Paulo. Hoje com mais de 700 mil assinaturas, o documento não cita nomes. Se o alarme de preocupação é verdadeiro, então a carapuça serviu como uma luva para o presidente da República e seus seguidores. Nesse caso, mais uma razão para desde já votarmos pela democracia. É assim que deve ser. E assim será.

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