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Sem licença

Caminhando rumo ao futuro

Publicado

Autor/Imagem:
Tania Miranda - Foto Francisco Filipino

Tenho saudade de rever nas currutelas
As mocinhas nas janelas
Acenando uma flor
Por tudo isso eu lamento e confesso
Que a marcha do progresso
É a minha grande dor
Cada jamanta que eu vejo carregada
Transportando uma boiada
Me aperta o coração
E quando olho minha traia pendurada
De tristeza dou risada
P’rá não chorar de paixão…
(Nonô Basílio e Índio Vago – Mágoas de Boiadeiro)

A vida não nos pede licença. O mundo segue em frente, indiferente a como nos sentimos ou deixamos de sentir. Isso é o progresso, a evolução. Cada momento vivido é uma caminhada rumo ao futuro, cada vez mais presente. E essa caminhada se iniciou a muito tempo atrás. Somente será interrompida quando o último de nós deixar de respirar nesse plano.

Se pensarmos bem, tudo se iniciou quando o homem dominou o fogo. Depois inventou a roda. Descobriu que construir sua morada o deixava livre para desbravar novos horizontes. Sua natureza nômade foi aos poucos se aquietando, e acabou por criar raízes, mesmo que temporariamente, em novos rincões que lhe possibilitavam uma vida mais confortável. Evolução natural, começou a fundar cidades que tudo lhe forneciam. A domesticação de algumas espécies selvagens foi essencial para que pudesse atingir um estado tal que lhe permitia dedicar algumas horas ao ócio. Deixou de depender apenas daquilo que conseguia em suas caminhadas. E cada nova invenção o distanciava de suas origens. E algumas almas se sentiam deslocadas no novo mundo que se avizinhava.

Com o tempo, passou a criar mecanismos que substituíam o trabalho braçal. Alguns eram designados para enfrentar a selva, fazer o trabalho pesado. Outros acabavam por fazer o controle das atividades dos primeiros. E sua função era prestar contas para aqueles que os grupos elegiam como “líderes”.

A invenção é a mãe da necessidade, já disse alguém certa vez. E a cada obstáculo encontrado por alguma comunidade, uma nova solução era criada. Tecnicamente, para melhorar a vida de todos. Na prática, ontem como hoje, apenas alguns acabam beneficiados por essas invenções.

Quando a vida em Sociedade foi se consolidando entre os grupos, algo mais além da Integração entre os vários segmentos foi criado. Normas foram implantadas pouco a pouco, engessando o livre pensar até então dominante. E de repente algo que deveria ser espontâneo se transformou em obrigação.

O senso de dever do ser humano é algo incrível. Quando recebe determinada tarefa e a considera sua missão pessoal, leva a mesma a cabo como se não existisse outro caminho a trilhar. E, para aquela pessoa, realmente não existe. Ela vive em função daquilo que lhe foi determinado. E não consegue visualizar nenhum outro destino além daquele que lhe apresentaram.

Os usos e costumes foram se consolidando de tal forma que, para a grande maioria, nunca houve outra Ordem além daquela onde cresceram. Foi a domesticação do Homem pelo Homem. A Humanidade nunca ficou tão perdida como quando enveredou por essa estrada.

Aos poucos as Castas Sociais foram se criando no meio dos grupos. E algo artificial tornou-se natural, tão natural que todos aceitaram como se a divisão de direitos e deveres tivesse sido igualitária. Não foi. Mas a blindagem criada por décadas, séculos, milênios determinou que tudo estava correto.

A servidão da maioria beneficiava uma pequena parcela que, do alto de seu trono, supervisionava as ações do grupo ao seu cargo. E, independentemente de como tal grupo era gerido, o que importava era o bem-estar do líder… pois ele era o único que tinha condições de “guiar seu povo”…

E aí está a grande ironia… quando essa Elite desenvolve algum tipo de avanço que possibilitará aos seus súditos um conforto mínimo, deixando um pouco das agruras de lado, a massa sente falta de seus momentos de penúria. Porque, em sua imaginação, qualquer tipo de “alivio” quanto à sua rotina estafante poderá ocasionar escassez de recursos necessários para sua sobrevivência.

Cada vez que o Mundo avança, criando uma nova tecnologia, o medo de perder suas colocações profissionais tira o sono da maioria das pessoas. E isso realmente acontece. Em determinada tarefa onde era necessário um grande contingente para dar conta da mesma, uma equipe reduzida acaba por resolver a questão. Um exemplo recente, mas nem tanto, é a situação descrita que abre esse texto… o transporte de uma boiada, há décadas atrás, movimentava um grupo razoável de pessoas. Nos dias de hoje, o motorista de um caminhão cargueiro faz o mesmo trabalho com rapidez e segurança. E assim caminha a humanidade.

Nossa preocupação a cada passo dado pela humanidade é… no final dessa corrida evolucionária, todos terão a mesma chance? Acredito que não. E isso independe de quanto a pessoa tenha estudado. Porque serão poucos postos de trabalho, uma vez que a automação, o Bicho Papão Moderno, terá sido implantado em todas as atividades humanas. Como já está sendo nos dias de hoje. E aí…

Bem, as cartas estão na mesa. Quem tiver a melhor mão leva tudo. Se será algo bom para todos, só o tempo dirá. Mas a humanidade sempre foi resiliente, não é mesmo?

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