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Brasil

Capitão Pantaleão procura Terta pra validar mentiras

Mathuzalém Junior*

As palavras são ferramentas extremamente importantes em nossa comunicação. Elas têm duas vias, muita força e grande poder, sendo capazes de motivar, levantar, emocionar, aproximar, decepcionar, magoar, afastar e, principalmente, derrubar. A máxima das mensagens, locuções ou falas está normalmente atrelada ao ditado popular quem fala demais dá bom dia a cavalo. Se, por um lado, minimizar a pandemia e conclamar diariamente apoiadores como copatrocinadores de um golpe é coisa séria, seríssima é ser aconselhado (e não aceitar os conselhos) a respeito da letalidade da Covid-19 e sobre golpear um país isolado, sem empregos, doente terminal, sem vacinas e com a economia em frangalhos. Certamente os mais graduados tentaram mostrar ao chefe (daí terem sido exonerados) que semanticamente seria o mesmo que derrubar bêbado.

Não ouviu e acabou perdido em ameaças difíceis de concretização. Perdeu-se na palavra mal aplicada. Muito mais do que manobra pessoal, de intimidação desconexa em busca de apoio real, atirou no que imaginou na vã tentativa de acertar no que quer, com o que sonha dia e noite. O presidente pensou em ganhar, ao mesmo tempo, o telhado e as estrelas. Tentou perder o que não queria (o apoio dos generais), mas conquistar o que nunca imaginou (a força das polícias estaduais). Nem tudo depende de um tempo, mas sim de uma atitude. E essa (a atitude) ficou nas palavras, que, a exemplo do tempo, são como os rios. Ninguém jamais tocará na mesma água duas vezes. Sem medir gestos ou frases, a ousadia do capitão Bolsonaro ao demitir, em um único ato, general, almirante e brigadeiro, espantou até aliados. Como decisão anormal, normal é que a crise fosse instalada no governo e no país.

A principal prova de que as vozes tornadas públicas pelo presidente não passaram de falácias eleitoreiras, demagógicas, intimidatórias e dissonantes da realidade é a pandemia da Covid-19. Após os horrores da gripezinha, ele permanece desacreditando a ciência, estimulando o uso de remédios sem eficácia, adiando a compra de vacinas, criticando governadores que defendem a vida e a desestimulando o uso de mecanismos capazes de conter a doença, entre eles a máscara. Depois de tudo isso, insistiu em fazer pouco dos imunizantes, especialmente do chinês CoronaVac e do russo Sputnik. De repente, volta atrás, rendendo-se ao remédio produzido pelo Instituto Butantan de João Dória e anunciando que tomaria a vacina. Agora, com a saúde colapsada e bem próximos dos 14 milhões de infectados e 340 mil mortos, Bolsonaro recua mais uma vez, corre atrás de quem tem vacina e diz que “há grande possibilidade” de o Brasil fabricar a Sputnik V, demonizada desde janeiro. Mais tempo e palavras levadas pelo vento da Esplanada dos Ministérios.

Também foi assim antes de ocupar de fato e de direito os palácios do Planalto e da Alvorada, quando, nos palanques, jurou que privatizaria os Correios, o Serpro e a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), entre outras estatais. O argumento equivocado era aliviar as contas oficiais. Não conseguiu explicar o inexplicável e passou a ser cobrado diariamente. Nunca soube, por exemplo, que a EBC produz e distribui a Voz do Brasil e cede para outras emissoras e sites a cobertura dos atos oficiais do presidente e do governo. Também jamais ouviu falar do sistema dos Correios e do Serpro, a maior empresa pública de tecnologia da informação do mundo. Esta semana, a ex-TV Brasil de Lula, um dos braços da EBC, estreou a novela Os Dez Mandamentos e telejornais locais de 15 minutos no Rio, São Paulo e Distrito Federal. De privatizável, a emissora vai pagar R$ 3,2 milhões pelos direitos da produção de 2015 da TV Record.

É o governo Bolsonaro revendo o discurso e transformando em meta o uso da máquina em proveito próprio. A última movimentação do presidente da República no sentido oposto ao das conversas com apoiadores ocorreu nessa terça-feira (6), quando, novamente desdizendo as palavras, pediu ajuda à Organização Mundial de Saúde (OMS) para frear a pandemia. Justamente a OMS, cujo diretor, Tedros Ghebreyesus, só não foi chamado de bonito por ele. Para bom entendedor, meia palavra basta. É o sufoco, o medo de ficar longe do poder. E está bem perto disso. Apelido daqueles que não acreditam em nada, que tendem a duvidar de tudo, o cético na verdade hesita quando faltam evidências que sustentam uma ideia. O negacionista duvida quando as evidências conflitam com seus interesses. Em outras palavras, não se pode confundir ceticismo com negacionismo, que é a escolha de negar a realidade como forma de escapar de uma verdade desconfortável.

A escolha é sua. Todas essas linhas são para concluir que é melhor se calar quando não há o que dizer. Pior é se desdizer. Como acreditar em quem, pela manhã, promete vacinas, à tarde pede apoio à OMS e, à noite, junto de sua trupe, volta a criticar o isolamento, chama de gordos quem está em casa e afirma que resolve o problema do vírus se pagar à imprensa. Parece bêbado tentando se equilibrar em uma navalha ensaboada. No dia em que o Brasil bateu todos os recordes em quantitativo de mortes, quem sabe o melhor caminho não fosse a rendição. Usar a cloroquina, ivermectina e hidroxicloroquina certamente nos emburreceria. Talvez essas tubaínas nos deixem simbolicamente cegos e surdos para deixarmos de ver e ouvir tantas asneiras. Conforme o pensador Sue Brandy, “há mais sabedoria no silêncio do que em um amontoado de palavras vãs e sem nexo…”.

*Mathuzalém Junior é jornalista profissional desde 1978

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