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De Copacabana ao Cerrado

Carmen: samba, quentura e raízes

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Carmen Toja Navarro, espanhola radicada no Brasil desde que os pais resolveram se mudar para o Brasil. Aos 20 anos, tutelada por sua mãe, foi com o noivo, francês, apaixonado pelos verões cariocas, conhecer Copacabana. Ironicamente, o rapazola, duas semanas após chegarem, retornou para Europa, enquanto a mulher se encontrou no carnaval e dançou os sambas que conseguiu sambar, sempre sob as vista da genitora.

Do Rio, Carmen, sempre acompanhada dos pais, rumou para Salvador, onde se encantou com a quentura do acarajé. E se esbaldou até que seguiu para Recife, onde o frevo fervilhava. E foi ficando, ficando, ficando, até que se embrenhou pelo Cerrado e foi dar de cara com Brasília, onde criou raízes que nem araticunzeiro.

Casou-se por impulso com Silas, mas amava de verdade Eliosmar, com quem sonhava todas as noites enquanto se deixava abraçar pelo marido. Os motivos, bem, não vale a pena serem discutidos. Entretanto, cabe aqui a transcrição quase fiel do que foi dito em uma sessão de Carmen com Maria Lúcia, sua psicóloga.

— Quero entender uma coisa, Carmen. Como você ainda mantém um casamento com um homem que não consegue suprir as necessidades da esposa.

— Mas o Silas sempre supria.

— Todas?

— Sim. Inclusive aquelas que inflamam a sua curiosidade.

— Não são curiosidades, Carmen. Preciso te entender.

— Sei disso. Bem, como estava te falando, o Silas supriu todas as minhas necessidades, inclusive as mais íntimas. Excelente marido, soube me mostrar esse mundo que, até então, era desconhecido por mim. Quer dizer, eu sabia de onde os bebês vinham, mas mamãe foi econômica quanto ao resto.

— O mundo era outro.

— Sim. Muito diferente. Não culpo minha mãe, que nunca soube como lidar com essa parte que, hoje em dia, parece tão mais natural nas conversas familiares. Não tanto quanto deveria, porém muito mais esclarecedora. E foi assim, crua da cabeça aos pés, que acabei no altar e, horas após, estava deitada ao lado de um homem que não amava e, pior, quase tão ilibado quanto eu.

— Ele era inexperiente?

— Totalmente… Quer dizer, Silas carregava na bagagem certo conhecimento teórico, se bem que distorcido. Seja como for, aquele foi o nosso, digamos, pontapé para a vida de alcova.

— Deve ter sido horrível pra você.

— Na verdade, foi libertador. Quer dizer, eu não tinha que dar satisfação de nada pra minha mãe, que parecia um pastor alemão. Agora éramos só nós dois… Não. Havia o Eliosmar também. Ele sempre esteve comigo, desde a primeira relação que tive com meu marido.

— Não estou entendendo. Como assim? Quer dizer, então, que você e o Eliosmar…

— Não. Ele só me tocou depois que eu estava casada há quase 40 anos. O que quero dizer é que, enquanto o meu corpo estava deitado sob o do Silas, o meu pensamento era todo voltado para o Eliosmar.

— E ele nunca desconfiou?

— Quem? O Silas?

— Sim.

— Olha, não vou dizer que sim ou que não, pois o meu marido sempre foi um homem muito discreto. Fogoso no quarto, mas era um pavio sem resquício de fumaça quando íamos para sala. Nossos assuntos não saíam da cama. Até mesmo antes do nosso primeiro filho nascer, nossos encontros eram restritos à nossa cama.

— E quando acabou, ele não ficou desapontado?

— Não. Pelo menos nunca notei. Pra mim, o Silas sentiu até certo alívio quando o cardiologista recomendou menos atividades. E foi aí que tive uma conversa séria com o meu marido, disse pra ele que eu era muito jovem ainda pra virar viúva. Ele me abraçou e, a partir daquele dia, seus beijos passaram a ser direcionados à minha testa.

— E o Eliosmar? Foi aí que ele reapareceu?

— Não. Quer dizer, ele e o Silas já se conheciam desde muito jovens, também sou amiga… Não amiga, mas colega… Conheço a Glória. Isso. Não somos amigas, mas nos conhecemos desde quase sempre. E não digo isso por ciúme da mulher do Eliosmar. Ela não tem culpa, o Eliosmar também não tem… Bem, talvez ele tenha um pouco, talvez mais do que um pouco, talvez até mais do que eu… Bem, isso não importa, são águas passadas, que deram a volta no mundo. E aqui chegamos.

— Então, você está feliz?

— Feliz? Não sei se o que sinto é exatamente felicidade, Maria Lúcia, mas gosto da ideia de ter me casado com o Silas. Afinal, foi com quem dividi e continuo dividindo a maior parte da minha vida.

— E o Eliosmar?

— O que tem ele?

— Bem, vocês…

— Sim, é verdade. Temos nossos momentos de recreio, e eu adoro cada minuto. No entanto, quando o fôlego se esvai, só penso em me deitar ao lado do meu marido, com uma bacia enorme de pipoca, e assistir a um bom filme. Você já viu A bela da tarde, com a Catherine Deneuve?

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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