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Ficha suja de fora

Cármen tira Arruda da disputa pelo Buriti, mas ainda faltam nove votos

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José Seabra - Foto de Arquivo

A ministra Cármen Lúcia, do Supremo, talvez tenha feito nesta sexta-feira, 22, aquilo que parte considerável do país já não esperava ver com frequência em Brasília. O gesto dela foi de compromisso com a memória moral da República. Ao votar pela preservação do texto original da Lei da Ficha Limpa, a relatora lembrou ao país que nem toda toga virou biombo para esconder conveniências políticas.

A decisão, ainda pendente de confirmação pelo plenário virtual do Supremo Tribunal Federal, joga luz sobre uma verdade que certos caciques tentam sepultar sob pilhas de recursos, acordos e tapetes persas de gabinetes refrigerados. Cármem deixou claro que a corrupção não pode virar currículo político, e muito menos senha de retorno triunfal ao poder.

A Lei da Ficha Limpa não nasceu de um jantar entre poderosos. Não foi parida em convescotes partidários nem escrita em guardanapos de restaurantes estrelados de Brasília. Foi uma iniciativa popular, com milhões de brasileiros assinando aquele texto como quem assina um grito de basta à roubalheira institucionalizada, do coronelismo togado, do espetáculo grotesco de políticos cassados voltando ao palco como se fossem vítimas da própria biografia.

Por isso, mexer na essência da lei para encurtar punições e aliviar condenados sempre pareceu menos uma “modernização jurídica” e mais uma lavanderia moral de luxo.

A ação proposta pela Rede Sustentabilidade foi cirúrgica ao afirmar que as mudanças “desfiguraram o arcabouço normativo de proteção à probidade e à moralidade administrativa”. Traduzindo do juridiquês para o português das ruas, tentaram desmontar uma das poucas cercas erguidas contra o retorno dos velhos saqueadores da República.

E é nesse ponto que o nome de José Roberto Arruda volta ao centro da cena. Cassado como senador, cassado como governador, preso no escândalo que transformou o mensalão do DEM num dos capítulos mais constrangedores da política nacional, ainda assim ele tenta vender ao eleitor a imagem de sobrevivente injustiçado, como se os vídeos de propina fossem delírios coletivos gravados por inteligência artificial avant la lettre.

Se prevalecer o entendimento de Cármen Lúcia, Arruda vira praticamente carta fora do baralho eleitoral de 2026. E talvez isso explique o nervosismo nos bastidores. A única saída seria um pedido de vista providencial, um velho instrumento que, em certos momentos, funciona como caminhão de mudança da sujeira para debaixo do tapete institucional.

Mas o custo moral de uma manobra desse tipo seria devastador para um Supremo que já atravessa uma crise severa de credibilidade perante a sociedade. O tribunal ainda possui ministros respeitados, é verdade. Porém, também carrega o peso crescente da percepção pública de seletividade, leniência e excessiva proximidade com os humores da política.

A Ficha Limpa tornou-se um símbolo justamente porque estabeleceu algo elementar: quem foi condenado por corrupção não pode tratar mandato eletivo como programa de reintegração social. Por que política não é clínica de reabilitação de fichas sujas. No fundo, sabe-se que o eleitor brasileiro pode até perdoar, mas jamais será obrigado a esquecer.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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