Curta nossa página


Fato, não fake

Caso do Master deixou a República sob suspeição

Publicado

Autor/Imagem:
Sonja Tavares - Foto de Arquivo/ABr

Mais cabeludo do que a perna cabeluda criada pelo cineasta Kleber Mendonça Filho, o caso do Banco Master parece um novelo de lã. Depois de aberto, cada fio puxado é um novo flash. Digna de um roteiro de filme ou de enredo de escola de samba, a rocambolesca história é cômica não fosse economicamente trágica para quase dois milhões de pequenos e médios investidores. Há de tudo um pouco no cenário dantesco do roteiro que acabou virando um conto de fantasmas traiçoeiros. Além do remediado menino mineiro que ficou bilionário, há uma bilionária instituição financeira que foi para o buraco e figuras que enriqueceram atuando como agentes secretos de um e de outro lado.

E o que sobrou para a incrédula plateia? Como sempre, restou o pão com a manteiga no chão e com a manteiga para baixo. Ou seja, o bônus derreteu, se transformando em ônus daqueles que nem os xepeiros de feira livre se arriscam a apreciar. Para o bem da credibilidade do país e da Justiça, em breve o menino prodígio batizado Daniel Bueno Vorcaro deverá atender por um número no sistema penitenciário do país. Apesar dos amigos “pesados” em todos os poderes, dificilmente ele se livrará do pomposo uniforme de agente secreto do xilindró.

Obviamente que, na bolsa de apostas dos contraventores do Rio, São Paulo, Brasília e Minas Gerais, os numerais 171 estão cotados, isto é, só pagam a metade do que for investido. Não é nada, não nada, mais é muito mais do que o Banco Master oferece. Só para lembrar, no dia da liquidação, a instituição comandada por Vorcaro dispunha de apenas R$ 4 milhões em caixa. Tudo isso depois de R$ 5 bilhões de rombo financeiro que o Master impôs àquele banco oficial que não está mais acima de qualquer suspeita.

Aliás, sob suspeita estão até os móveis que eventualmente assistiram – ou participaram – dos nada eventuais encontros furtivos (alguns noturnos, outros sem hora combinada) entre todos os atores envolvidos na estrogonófica historieta que abalou a republiqueta do bananal. Embora apresente um elenco de astros de espectros diferentes, alguns eleitos, outros indicados e muitos coadjuvantes, o filme em cartaz na Polícia Federal exige credibilidade. Afinal, pelo menos em tese, não há no Brasil artistas intocáveis. Nessa altura da bandalheira generalizada, intocável deve ser o povo que paga impostos, o povo para quem normalmente sobra esse tipo de conta.

O Master era um banco que serviu a gregos, baianos, troianos, engravatados e togados. Esse banco quebrou e levou a confiança e a legitimidade dessas pessoas como autoridades para o buraco negro de ozônio. Os gases se dissiparam, mas a participação e queda de todas elas precisam ser explicadas, sob pena de o mesmo buraco engolir de uma só vez a seriedade e o respeito constitucional devidos ao Estado e, por extensão, à sociedade. Temas vergonhosos como o do Master não podem acabar em pizza. O escândalo do Master é tão real que, antes de qualquer indicação ao Oscar da safadeza, há a exigência de respostas rápidas, inequívocas e democráticas à população.

É fato e não fake que a Praça dos Trê$ Podere$ e toda a República estão sob suspeição. Na lona como pessoa jurídica desde o governo passado, hoje Daniel Vorcaro não é somente um banqueiro quebrado. Ele virou motivo de provocação política de parlamentares vinculados à gestão passada. Portanto, considerando a forma com a penumbra o encobriu por tanto tempo, desde já é inaceitável trabalhar para emparedar autoridades que, baseadas na lei, emparedaram o perna cabeluda que alguns deputados e senadores teimam em idolatrar. Nada contra. Idolatrem quem quiserem, mas que sejam parcimoniosos e também incluam em suas investigações ministros e congressistas do passado. Não esquecendo, é claro, dos que sabidamente compraram bananas podres de um cacho reconhecidamente condenado.

………

Sonja Tavares é Editora de Política de Notibras

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.