Sol Nascente 2

Chega gente de todo canto – até de carroça, para virar motoboy

Foto/Arquivo Notibras
Pedro Nascimento

Para os que acharam um cantinho caloroso onde o sol nasce, o motivo de ter saído da terra natal é sempre o mesmo: a busca de melhores oportunidades. E não podia ser diferente. A uma hora do Plano Piloto, os que vêm para ficar encontram no Sol Nascente a chance de trabalhar na Capital Federal. Foi assim que pensou Rivelino da Silva.

Hoje aos 42 anos de idade, ele saiu de Brejão, município de Pernambuco, há 14 anos para tentar a sorte no quadrado central. Com emprego garantido, as chances de ganhar um salário mais justo em Brasília eram altas. “A minha cidade natal sempre foi muito ruim de emprego, eu não ganhava bem e precisava me estabelecer. Um amigo meu que morava em Brasília, garantiu que se eu viesse conseguiria emprego como caseiro em uma chácara. Aí, eu nem pensei duas vezes”, lembra.

O emprego deu certo. “Fiquei pouco tempo trabalhando na casa, mas assim que saí já arrumei um emprego em uma transportadora. Foi quando conheci a Domingas, minha atual mulher. Depois de uma semana decidimos morar juntos”, revelou Rivelino às gargalhadas. Na época, o casal morava no Recanto das Emas de aluguel, então, depois de juntar uma quantia que considerou razoável, R$ 50 mil, ele se decidiu. Comprou uma casinha no Sol Nascente em uma região chamada Pinheiros. “Ela foi a única que nos acolheu. Com essa quantia a gente não teria achado aqui no Distrito Federal em mais nenhum lugar”, acredita.

Rivelino trabalha como motoboy. Sem carteira fichada, ele tem através da moto, duas rendas. À noite ele está entregando pizza para moradores da própria região, e durante o dia utiliza o veículo como moto-táxi. Na opinião dele, a renda que ganha com a atividade é até boa, comparada a dos vizinhos.

“Consigo tirar cerca de R$ 2 mil mensalmente”, comemora. Mesmo assim, o orçamento fica bem justo para sustentar a esposa e três filhos. “Minha mulher fica em casa cuidando das crianças. Quando vamos colocar as despesas na ponta do lápis não sobra muita coisa”, revela o motoboy acrescentando que, apesar da renda apertada, não deixa faltar nada para a família. “Podemos não ter as melhores condições, mas não deixamos nossos filhos passar fome. Isso é o mais importante”, considera.

Há sete anos no Sol Nascente, Rivelino conta sua admiração pelo desenvolvimento do local. “Eu a vi crescer, quando chegamos não tinha nem metade das construções que tem hoje. Como as coisas mudam rápido. Hoje não me vejo em outro lugar”. Mas isso não significa que ela não precise de mais atenção. A região do Sol Nascente não tem registro de cidade satélite ou de bairro.

Quem mora lá tem muita dificuldade de identificar seu endereço.  Google maps? Esqueça! O GPS ainda não reconhece as esquinas do Sol Nascente. “Nós somos esquecidos aqui, como se a gente não valesse nada para o nosso país”, lamenta Rivelino.

E as reclamações de Rivelino fazem coro com as da sua vizinhança. Insegurança, falta de escolas, de hospitais e transporte público, são apenas algumas das queixas recorrentes. Apenas 10% das vias da cidade possuem asfalto. Até estrutura de saneamento básico falta na expansão habitacional. Mais de 50% das famílias que ocupam um lugarzinho no Sol Nascente ainda não têm acesso à rede geral de esgoto e aterro sanitário. Recorrem à fossa séptica como alternativa para se livrar dos dejetos.

Médico sanitarista e professor universitário, Apolo Heringer Lisboa explica a Notibras que os problemas decorrentes das fossas urbanas podem ser inúmeros. Entre as enfermidades se destacam as verminoses e até doenças como hepatites. E as complicações não param por aí. “Os dejetos, na maioria das vezes, acabam indo para rios e córregos. Junto com urinas e fezes são descartados também hormônios, medicamentos e substâncias químicas que acabam indo para hortas e alimentos de pessoas e animais”, pontua.

“Quando você está no ambiente rural a fossa pode ser uma boa solução, mas com uma concentração grande de casas é preciso haver uma coleta de esgoto e tratamento adequados”, defende o sanitarista. Para ele, é preciso haver um tratamento prévio dos dejetos, e o governo, principal responsável pelo saneamento urbano, não o faz de forma adequada. “Não é certo você coletar o esgoto de uma região inteira e depois descartar em qualquer lugar, é o que o estado faz. Cada casa deveria ter um tratamento adequado e não apenas ser cobrada por isso”, critica Heringer.

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