Modismo político
Com irmandade própria, revolucionário começa mudando a si mesmo
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Confundir a pistola do frei Serapião com a epístola do padre Frazão é aceitável. Complicado é aceitar como normal a confusão entre as férias de verão com as ideias de Eva e Adão. Pior é misturar cotia com aquilo da tia. Aí o bicho pega, mas ninguém mata ou morre. Terrível mesmo são os políticos confundindo o público com o privado. Aí quem mata e morre é o povo que ainda acredita neles. Cui bono? Bom para quem, cara pálida?
Só para eles que transformam o supérfluo em uma coisa extremamente necessária. Não sei onde eles esperam chegar, mas não vou insistir no assunto, pois sei que uma discussão prolongada sobre qualquer tema significa que todas as partes envolvidas estão erradas. Por isso, sabendo das dificuldades em libertar os tolos das amarras que eles veneram, prefiro me ocultar, respeitá-los e silenciosamente optar pelo termo em latim Alteri ne facias quod tibi feri non vis, ou seja, não faça aos outros o que não queres que te façam.
Apesar do recuo a la Trump, não devo me afastar de meus conceitos progressistas a respeito do conservadorismo. Por exemplo, nunca deixarei de concordar com a teoria de Bertolt Brecht, para quem a cadela do fascismo está sempre no cio. Também jamais duvidarei da máxima de que o pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Partindo desses pressupostos filosóficos, durmo e acordo sem qualquer dúvida sobre a afirmação de que nossa felicidade depende mais do que temos em nossas cabeças do que em nossos bolsos.
O modismo político desta década está centrado no binômio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Considerando que opinião, bunda e candidato cada um tem o seu e que o fanatismo consiste em ignorar tudo aquilo que é verdadeiro, mais uma vez me calo diante das evidências produzidas por um e outro lado. Na verdade, eu não iria de graça para a fogueira por uma opinião minha. Afinal, não tenho certeza alguma de nada. Porém, no campo da política, me queimaria pelo direito de ter e mudar de opinião quantas vezes eu quiser ou precisar.
Com todo respeito às famílias e aos bons costumes, sigo sem qualquer preocupação com as críticas à definição prática de Friedrich Nietzsche quanto às preferências político-partidárias: “Em chuva de pika (?), escolha a menor e senta”. De forma mais didática, entre o ser e o parecer há uma diferença abissal. Um é verdadeiro, enquanto o outro prima pela falsidade, isto é, vive da mentira. Nenhuma alusão ao atual, tampouco ao governante anterior. Refiro-me a todo ser humano que se mostre exemplo de perfeição, mas é incapaz de observar a imperfeição do próprio rabo. Que vista a carapuça aquele que se assemelha ao macaco do antigo provérbio popular.
Não tenho vocações revolucionárias, principalmente porque acho que revolucionário é aquele que quer mudar o mundo e tem a coragem de começar por si mesmo. Sintetizando, acho que a verdadeira revolução acontece quando deixamos de esperar e começamos a ser. Ainda bem que a gente escolhe o que quer ser na vida. Alguns optam por ser grandes e vitoriosos. Azar daqueles que preferem a pequenez, a mentira e a manipulação. Consciente de que Ne Jupiter quidem omnibus placet (Nem Júpiter pode agradar a todos), desde cedo ouço dizer que o melhor governo é aquele em que há o menor número de homens inúteis. Portanto, considerações à parte, morrerei defendendo os adeptos do conceito Veni, vidi, vici (Eu vim, eu vi, eu venci! Et tu, Brute? E tu, Brutus?
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras
