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Eleição da razão

Com título na mão, eleitor que põe é o mesmo eleitor que tira

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Foto/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto Valter Campanato

Como diria o poeta do absurdo, a um ano da eleição tudo pode acontecer, inclusive nada. Se dissesse isso hoje, certamente seria imediatamente corrigido pela locução oficial, que diria: em 2022 tudo será diferente. Pode e deve ser, mas para quem? Para alguns, tudo permanecerá como os carnavais de outrora, quando o ala la ô e o me dá um dinheiro aí seguravam qualquer onda. Entretanto, há um Jair Bolsonaro entre o velho e o novo. Por mais que o mito não tenha tido inspiração, força, vontade ou sabedoria para governar, inegavelmente ele deixará um espólio interessante para o país e para os eleitores. Obviamente que não será um legado dos mais positivos, principalmente em termos econômicos e sociais.

Embora não tenha cumprido quase nada do que prometeu em 2018, o discurso de honestidade, probidade e do fim da mamata não poderá sofrer solução de continuidade, isto é, não deve ser interrompido. Para o candidato ou candidatos com chances reais de chegar ou voltar à Presidência da República, não há hipótese de retorno a situações ou cenários anteriores. É fundamental que lembremos sempre que foi justamente o recente horizonte de incertezas e de divisões o principal responsável pelo panorama que parte da população enfrenta hoje. Em menor volume, a outra parcela está feliz e deseja manter o atual quadro de soberba, exotismo, despreparo e desprezo por aqueles que literalmente rezam por cartilhas diferentes. Nada parecido com o que vivemos em governos do passado, fossem eles de centro, de esquerda ou de coisa alguma.

A exemplo de expressiva maioria do povo, não sou movido por ideologias, tampouco acredito que a cor ou o número do partido é que fazem diferença na índole do governante. Em 2022, a disputa precisa ser encerrada imediatamente após a divulgação do último voto. A partir daí, a prioridade zero tem de ser o Brasil e o brasileiro. Portanto, venham da esquerda, da direita ou do Centrão, as propostas e as ideias é que devem conduzir esse ou aquele candidato à posição de estadista. Tudo indica que, mais um vez, o governo mudará de comando. Talvez até volte para mãos antigas. Pouco importa. Importante é que o dono das mãos vencedoras jamais esqueça que o país não pode mais ser dividido em grupos ou plateias que preferem o histerismo à luta pelo crescimento e pela paz. Apostar no caos, na impunidade ou em soluções mentirosas são coisas do passado. Pelo menos deveriam ser.

A filosofia oriental nos ensina que a dificuldade gera facilidade. Isto quer dizer que as dificuldades e os obstáculos é que nos fazem crescer. Sem medo de ser confundido como aproveitador de oportunidades, não lembro de período mais difícil do que esses últimos dois anos e dez meses de governo Bolsonaro e de pandemia. Por isso, decidi, ainda que de forma anedótica, desejar aos familiares e amigos um pouco de dificuldade e sofrimento nesse fim de ano. Quem sabe não é isso que precisamos para valorizarmos o mundo e quem nele habita. Somos do tamanho daquilo que vemos ou idealizamos. Pensemos nisso como naquele prato de comida que alivia nossa fome. Não consideremos a quantidade de sonhos que ainda temos, tampouco os caminhos que teremos de percorrer. É improvável, mas não custa tentar eleger quem realmente nos representa. Afinal, o tempo é muito curto para perdermos nossa maior arma social: o voto.

Já fiz a mesma indagação numerosas vezes, mas vale repeti-la. De que vale o poder sem o respeito do povo? De que vale ter tudo na vida se nos falta a força e o carinho do próximo. É como a pergunta de Roberto Carlos em uma canção dos tempos em que felicidade, alegria, patriotismo e política não se misturavam. Qual é o projeto de país que queremos para nossos filhos e netos? O do fim da Floresta Amazônica? O da absoluta exclusão? Será o da fome generalizada? Quem sabe o do comando irrestrito das milícias e do narcotráfico? Talvez um pouco de cada. A verdade é que, vença quem vencer as eleições de 2022, a mentira e o desprezo pelos eleitores estão com os dias contados.

Acabar com a roubalheira endêmica, estancar a corrupção e reconduzir o país à união social são parte de outro capítulo da história eleitoral. Vai depender da robustez de caráter ou da recuperação moral do vencedor. O Brasil e os brasileiros torcem para que o próximo presidente da República tenha sempre no bolso do paletó o recado clássico da razão: o poder é tão efêmero como a própria vida. Modismo de sucessivos governos e que não cessa em nossos dias, a mentira ultrapassou todos os limites do bom senso e da probidade. A verdade filosófica é que alguém pode mentir para muita gente por algum tempo, mas nã dá para mentir para todos o tempo todo. Senhores candidatos a esse ou aquele cargo, notadamente à Presidência, os tempos são outros. Ainda que hediondamente divididos, o eleitor que põe é o mesmo que tira.

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