Política de fingimento
Congressistas miram no STF para tentar esconder suas próprias mazelas
Publicado
em
Embora seja considerada uma arte, a hipocrisia política no Brasil é algo acima do normal, muito além do permitido. Quem não conhece os deputados e senadores brasileiros costumam achar que eles se mascaram para se esconder dos eleitores chatos. Os que conhecem de perto as excelências têm certeza de que as máscaras servem como disfarce de seus embustes, de suas vigarices, do pouco casso deles com as causas do povo. Nos plenários da Câmara e do Senado ou em suas bases eleitorais, os congressistas trabalham tanto para mostrar o que não são que acabam se perdendo no próprio personagem.
De tão irrelevantes, as exceções são engolidas pela maioria hipócrita. Como não existem máscaras que durem mais do que a própria face, em ano eleitoral e quanto mais próximo das eleições algumas caem. É nesse momento que a verdade aparece e a admiração desaparece. Agindo como libertadores de um Legislativo íntegro, probo e acima de qualquer suspeita, algumas dezenas de honrados e retos deputados e senadores resolveram se unir a dois ou três governadores contra o insuspeito Supremo Tribunal Federal.
Mirar no STF, particularmente nos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, cujos nomes estão de alguma maneira associados ao escândalo do Banco Master, é a palavra de ordem entre boa parte dos 584 congressistas. Os senadores são os que mais têm necessidade de se insurgir contra a Corte Suprema por meio da mídia nacional. Ainda que gritem mais do que o homem da cobra ou do que o vendedor ambulante de panelas, eles sabem que ficará o dito pelo não dito. Se alguém corre risco, são eles e não os ministros.
Para os eleitores menos acostumados com o dia a dia da politicagem, seus eleitos estão trabalhando sério e honestamente para garantir a equidade nacional. Só que não. Água e óleo se engolem, mas não se misturam. A força faz parte dos legisladores e de quem judicializa. A diferença é que alguns são vitalícios, enquanto outros dependem do mandato. Ou seja, sem a imunidade é um cidadão comum. Por isso, jogam para a plateia, embora saibam que se trata de uma luta inglória.
É a mesma coisa que tentar apagar um incêndio com óleo diesel importado via Estreito de Ormuz. Serviçais de uma corrente ideológica fora do poder, antes de pensar no povo e no país, as excelências estão tentando salvar a própria pele. Na verdade, é como a máxima do roto e do esfarrapado. Ao mesmo tempo em que fingem emparedar os senhores de capa preta, os mascarados parlamentares fingem estar cumprindo um papel constitucional.
Uma rápida consulta à Mesa do Senado é suficiente para perceber que há mais pedidos de impeachment de ministros do STF do que projetos de lei em benefício da sociedade. Resta ao eleitor avaliar que, mantido o atual quadro político, dificilmente chegaremos a um bom lugar. Se a ideia é permanecer no mesmo patamar de caos e de fingimentos, as eleições de outubro estão aí para garantir que definitivamente preferimos o país definido pelo filósofo Tim Maia há quase 30 anos: O Brasil é o único lugar em que prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme, traficante se vicia e matador se mata. O “Sicário” de Daniel Vorcaro é o exemplo morto do melhor e do pior do Brasil.
……..
Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978