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Ironia política

Congresso vira reino de poucos que vivem zombando do eleitor

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Autor/Imagem:
Heliodoro Quaresma - Foto de Arquivo

Nunca é demais atualizar os ensinamentos políticos do imortal Ulysses Guimarães. É dele a célebre frase que, por convicção, ideologia ou safadeza, nenhum dos atuais deputados e senadores jamais ousou negar, mas nunca tentou cumprir: “Não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem roube, eis o primeiro mandamento da moral pública”. Não cumpriram, não cumprirão e, mais cedo ou mais tarde, sofrerão uma praga em forma de mensagem do mesmo deputado que passou para a história como um dos maiores homens públicos de todos os tempos: “A história nos desafia para grandes serviços. Nos consagrará se o fizermos e nos repudiará ser desertarmos”.

A maioria dos parlamentares de hoje faz muito pior. Eles confundem negociação com golpismo partidário e política com politicalha, cuja definição na versão de Ruy Barbosa é “a malária dos povos de moralidade estragada”. Só soube que o Congresso era isso quando fui apresentado, no início dos anos 80, isto é, no século XX, à desfaçatez de suas excelências e à rapidez como elas arruínam o que é do povo. Com todo respeito aos bípedes de rapina, mesmo sem os bicos recurvados e pontiagudos, “nossos representantes” estão mais para predadores do que para eventuais salvadores da pátria,

Minha chegada ao Parlamento coincidiu com os estertores do período mais negro da política nacional. Embora já defasado da cultura do dever público, ainda encontrei deputados e senadores de brio, com alguma honestidade e, principalmente, conscientes de que foram eleitos para servir ao país e não para se servir dele. Passadas algumas legislaturas, cheguei a desanimar de minhas virtudes, a rir de quem alardeava integridade de caráter e a sentir vergonha de ser honesto. Aliás, os congressistas do século XXI ignoram esse sentimento relacionado com o receio da desonra ou do ridículo.

Atualmente, a vergonha e o pavor de passar em frente à sede do Congresso Nacional ajudaram a brotar em mim e em metade mais um dos brasileiros uma esperança que não cessa. Pelo contrário, ela só cresce. É uma expectativa incontida, quase um desejo, de ver os 584 deputados e senadores da legislatura vigente ardendo na fogueira da vaidade ou sendo levados pela fumaça das queimadas que eles solenemente ignoram. Infelizmente, tenho vergonha da espécie humana fantasiada de parlamentares. Como são omissos, indignos e desumanos.

Com raríssimas exceções, se locupletam, violam leis, manobram sujo, ultrapassam desonestamente as pessoas e não se envergonham de jogar o país que tanto dizem amar na lama. Sei que seria ineficaz, mas, caso vergonha na cara estivesse à venda nos supermercados, compraria quilos, embrulharia para presente e mandava entregar nos gabinetes da Câmara e do Senado Federal, particularmente no gabinete do senador Davi Alcolumbre (União-AP). Afinal, quando o homem perde a vergonha, o que vier lhe cai bem. Que Congresso é esse que trabalha para transformar a prisão dos pares em colônia de férias?

Que congressistas são esses que, de camarote refrigerado, assistem o país arder em chamas e nada fazem? Só pensam em si, nas eleições presidenciais e parlamentares de outubro e nas municipais de 2028, na presidência das duas casas de “leis” e na liberação geral dos ditos “patriotas” de 8 de janeiro de 2023. Que Congresso é esse que trabalha para transformar a prisão dos pares em colônia de férias? A maior ironia é ver diariamente os sem vergonha cobrando ética, honestidade e respeito de quem os condena. Um dia a casa cai. Espero viver para comemorar a data com toda pompa.

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Heliodoro Quaresma, jornalista aposentado, tem uma velha Remington como troféu na estante da sala e usa um Notebook para escrever artigos pontuais para Notibras

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