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Cami

Conto inspirado no tango Caminito

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Ah, Caminito, que chato! Ela foi embora. E você, rua do coração da Boca, pertinho do estádio do Boca Júniors, foi tombado. Não que o tivessem derrubado no chão ou coisa parecida, Cami (posso chamá-lo assim?); mas ficou congelado no tempo, suas casinhas de cores brilhantes preservadas como eram na primeira metade do século XX.

Quanto a mim, fiquei sozinho, mas me virei, outras mulheres esquentaram a minha cama. Não era ela, que se foi para nunca mais voltar, mas deu pro gasto. A sua sorte, Cami, acho que foi pior. Virou uma rua-museu. Tangueros e paicas não o percorrem mais, apenas turistas, que assistem a exibições de dançarinos entediados, como se aquilo fosse tango. Não é. Não existe mais “uma tristeza que se baila”, a clássica definição do tango, apenas peritagem.

Enfim, vou levando, envelhecendo, ficando mais taciturno a cada dia. Já você é obrigado a ostentar cores que saíram de moda, a exibir uma alegria encomendada, a fingir que o tempo parou. Não parou, Cami, jamais para. “Seu” tango tem os versos “Yo a tu lado quisiera caer/Y que el tiempo nos mate a los dos”. Não é verdade. O tempo vai me matar algum dia, e a quem estiver a meu lado – mas você vai continuar, colorido e falso, como uma nota de três pesos.

Para o consolar, e talvez lhe sugerir uma saída, ofereço a paráfrase de um famoso verso do poeta catalão Antonio Machado. Lá vai:
Caminante [Caminito] no hay camino, se hace camino al andar. Ou seja, Caminito, Cami, mexa-se, quebre essa imobilidade de cenário hollywoodiano. Isso vai trazer o risco de envelhecer, de morrer, mas, até lá, sua vida terá sido muito mais vibrante!

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