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Brasil

Covid-19, BBB, desgoverno. O que têm em comum?

Mathuzalém Junior*

Sextou, sabadou e já domingou. Entretanto, as manchetes dos principais sites e jornais brasileiros continuam as mesmas da semana, do mês, do ano passado. A principal delas revela que o presidente da República continua na contramão da realidade, do bom senso e da sapiência. Em “conversa” na sexta-feira com apoiadores na porta do Palácio da Alvorada, ele voltou a questionar a eficácia “dessa vacina aí”, informando que ainda não há nada comprovado cientificamente sobre a CoronaVac. O que está acontecendo com nosso mestre administrativo? Perdeu a memória? Teme o sucesso de João Dória? Está até o topo com a capacidade dos chineses? Sei lá. Acho que só Deus saberá.

Para refrescar as ideias, não custa lembrar que a vacina de olhinhos fechados foia primeira aplicada no Brasil. Mais refrescante é rememorar que, semana passada, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o antídoto do laboratório Sinovac, o que significa que o remédio tem a eficácia e a segurança necessárias para ser usada emergencialmente, como vem ocorrendo. O mais interessante é que Bolsonaro só não chamou João Dória de bonito quando soube que o governador de São Paulo tirou dele a primazia da primeira picada. Vou pedir ajuda aos universitários para tentar uma resposta justa para essa confusão.

Como explicar ao eleitorado a razão de tanta ranhetice contra os chineses e, ao mesmo tempo, a briga para que o medicamento seja reconhecido como do Brasil e não do Instituto Butantan, a casa da discórdia entre presidente e governador? No meio dessa desgrenhada confusão do mar e da montanha, sobra para o pobre marisco (o povo) a dúvida da década: tomar vacina e esconder o cartão declaratório, como fez Bolsonaro, ou atender a ordem do líder, continuar infectando quem encontrar pelo caminho e correr o risco de morrer antes de dobrar a próxima esquina?

Mesmo contra a vontade do presidente, o Butantan já liberou quase um milhão de vacinas do segundo lote para que o Ministério da Saúde distribua aos estados. Ou seja, sob protestos da turba bolsonarista, parece que, sem qualquer estalo de pólvora, a China do camarada Xi Jinping encaixotou de vez os nunca vistos estoques de cloroquina, hidroxicloroquina, azitromicina e Tamiflu. Como o caviar de Zeca Pagodinho, os hospitais, médicos e pacientes sempre ouviram falar, mas nunca viram tais porções mágicas. Do meu catre, estou igual sertanejo em época de seca. Quando chegar minha vez, meu braço primeiro. Não quero saber quem inventou o trem, mas vou tentar um lugar na janela. Falando sério, quero meu direito à vida. Afinal, amanhã começa o que ninguém quer perder: o 21º. encontro com o Grande Irmão.

Não é minha praia, mas não posso ser hipócrita de afirmar que, ao longo dos próximos três meses, deixarei de dar uma rabeada de olho nas confusões, falta de civilidade, ruptura, divisão em grupos e inimizade – mesmo entre os que se dizem amigos – e na disputa pelo milhão e meio a qualquer preço. Coincidência com nossos dias? Infelizmente. Com ibope altíssimo, o reality show “Big Brother Brasil” é reflexo do que vivemos e enfrentamos hoje. Pouco importa. Decidi entender o prazer de torcer a favor de quem odeia amar e ama odiar. O que não admito perder é o primeiro sexo sob edredom do ano.

Parte da produção, o (des) grupamento já começou com a separação entre camarote (famosos) e pipoca (desconhecidos). São idênticos aos coxinhas e pão com mortadela de Lula ou bolsominions e jacarés de Bolsonaro, ambos desacostumados a respeitar opiniões contrárias, o espaço alheio e a escolha soberana do presidente dos sonhos. Antes de fluir o assunto, cara de jacaré será o resultado, conforme bolsonaristas, da aplicação da vacina contra o coronavírus. Optei pelo focinho comprido à cara de defunto, que é como acabam – ou acabaram – aqueles que preferiram a beberagem. Melhor vacinar do que defuntar.

Estrogonoficamente falando e rocambolescamente pensando, achei interessantíssimo descobrir que, criado em 1999 por John de Mol, executivo da televisão holandesa, sócio da empresa Endemol, o “Big Brother” teve sua denominação inspirada no nome de um personagem do livro 1984, de George Orwell: Big Brother (Grande Irmão), que, na versão orwelliana, é o próprio apresentador do programa. Mesmo tomando vacina, dificilmente terei condições de estar vivo na edição 153 do BBB.

Que me perdoem os seguidores do bispo e de Bolsonaro, mas, entre as crias do Grande Irmão brasileiro, nunca tive coragem de assistir o similar da roça. Nada contra os participantes, apresentador ou diretor, mas tudo a favor dos originais. Já bastam os genéricos receitados pelo presidente e ratificados pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. Eles podem ter o mesmo princípio ativo, usar as mesmas drogas, mas o formato da bula jamais será digerido pelos que têm cara de jacaré. Como não assisto àquela emissora, repasso informações recebidas de quem já experimentou a cloroquina: tem cheiro de citronela, mas o efeito passa longe do esperado dos manufaturados chineses. Ainda são malnufaturados (com l mesmo) em vários setores, mas dão as cartas quando o assunto são os insumos farmacêuticos.

Fã de neologismos, pincei dois de informações antigas sobre um bebeniano vencedor. Repetindo o estronoficamente falando, não há qualquer similaridade entre a crise sanitária, a urgência da imunização, o bate-cabeça do governo, o marasmo e a incompetência de ministros e o BBB. Entretanto, enfatizando a análise rocambolesca, lembro a situação de São Paulo, onde uma pessoa morre de Covid-19 a cada seis minutos, e a catástrofe anunciada de Manaus, cidade que sofre com a falta oxigênio nos hospitais, parece que vivemos um período de descobertas relativas às formas de lidarmos com a pandemia. Há casos em que há convergência a respeito da doença: a maioria acha que já acabou ou que nunca existiu. Que foi uma invenção da China para ganhar dinheiro com a vacina.

Voltando à convergência, alguns fizeram e fazem pouco caso da doença porque têm de cumprir promessas machistas e indecorosas de campanha, além de conchavos políticos indivulgáveis, enquanto outros não sabem como tratá-la ou precisam honrar compromissos financeiros, contratos com patrocinadores e acertos com a audiência. Também convivemos com aqueles que, irresponsavelmente, apostam no pior. São os que temem perder um minuto da vida, mesmo que se arrisquem a perder a vida em um minuto. Azar o deles. Eu, que já ultrapassei 20 anos do meu segundo século de existência, prefiro as amenidades do lar, o contato virtual com boa parte da família e com os amigos e a busca de outros predicados. Por exemplo, aprendi a fazer pão, lavar louça com água fria e fritar ovo sem esfacelar a gema. O próximo passo talvez seja o tricô e o crochê. É só mais uma opção. Por isso, não temo perder a masculinidade.

*Mathuzalém Junior é jornalista profissional desde 1978

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