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Expectativa e superstição

Crise no futebol não justifica deixar de ser torcedor brasileiro

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Autor/Imagem:
Armando Cardoso - Divulgação/CBF

Independentemente da vibração, do fervor do torcedor, do amor pelo verde e amarelo e da confiança dos verdadeiros patriotas, a crise de identidade do país atingiu em cheio o futebol nacional. E, pelo andar dos helicópteros, dos iates e das BMW de boa parte dos jogadores, o perrengue ainda vai longe. Talvez nem acabe mais, Diante do que estamos vendo na Copa do Mundo dos Estados Unidos, México e Canadá, o Brasil certamente não é zebra, mas, nem no jogo do tigrinho a Seleção Canarinho pode ser considerada pule de dez. No máximo, de dois e meio ou três. Como não deixei de ser brasileiro, e daí?

Instalada há pelo menos duas décadas, a crise do futebol brasileiro é sistêmica e marcada pela crônica dependência do capital, pela má gestão administrativa, alto endividamento dos clubes e, principalmente, desorganização dos calendários. Para qualquer menino da quinta série, está claro que a situação afeta desde as finanças institucionais e o desempenho da Seleção à qualidade estrutural das competições nacionais. Com relação à Seleção, a crise combina desempenhos esportivos irregulares, instabilidade institucional na Confederação Brasileira de Futebol e desconfiança da torcida. É verdade, mas continuo brasileiro roxo!

Faz algum tempo que a CBF passa por turbulências políticas, incluindo disputas jurídicas na presidência e incertezas no comando geral, as quais impactam diretamente no planejamento do futebol nacional. A falta de identificação da atual geração com o futebol da Seleção tem sido frequentemente motivo de discussão. No entanto, o problema não é do povo, mas dos dirigentes. Recentemente, numerosos ex-jogadores campeões mundiais divulgaram um manifesto, por meio do qual lamentam o fato de o futebol brasileiro ser refém de disputas de poder e de interesses que ignoram o bem maior do esporte. Uma pena, mas vamos que vamos, Brasil!

Apesar do prazer e da satisfação de ser brasileiro, torcedores, cronistas e analistas de ontem e de hoje são unânimes em afirmar que a Seleção virou “um lugar fácil para descarregar decepções políticas, sociais e econômicas”. Como amante do futebol – do bom futebol -, já não me iludo com o ex-honrosa designação de “pátria de chuteiras”. Eu tento, torço, acredito e, às vezes, brigo, mas como aplaudir de pé uma Seleção que não é no país e nem pelo país? Difícil. Em algumas situações, é quase impossível. Mesmo assim, é a minha “amarelinha” e não se fala mais nisso.

A pergunta que ando me fazendo provavelmente é a mesma de milhões de brasileiros desde o início desta semana, quando a CBF divulgou as próximas rodadas do Brasileirão. Curiosa, grotesca e despreocupadamente, a entidade publicou informações das rodadas 19 a 24 do Campeonato Nacional. Alguns jogos vão acontecer nos dias 16 e 17 de julho, isto é, antes da final da Copa do Mundo, marcada para o dia 19. Ou seja, nem a CBF acredita que a Seleção Brasileira é candidata ao título. Triste, mas a crise não é desculpa para eu deixar de amar e torcer pelo meu, pelo seu, pelo nosso Brasil. Fora CBF e todos os falsos patriotas

Para mim e para os patriotas acima de qualquer suspeita, a camisa amarela carrega expectativa e superstição. Ela é memória afetiva. Infelizmente, nosso futebol vem se deteriorando há anos, sendo sugado por cartolas que não têm talento sequer para fazer uma embaixadinha. Conforme o ex-jogador e atual senador Romário, estamos perdendo, fora de campo e de goleada, copas em cima de copas. Enquanto isso, os dirigentes da CBF gerenciam corruptamente um patrimônio humano de inestimável valor de mercado. Pior é que ainda usam nosso hino, o mais bonito do mundo, nossa bandeira e nossas cores. Aproveitemos o jogo de amanhã (29) com o Japão para deixarmos os olhos bem abertos contra aqueles que querem transformar a Seleção e a pátria em um grande negócio apenas para os outros.

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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

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