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Cultura

Dancin Days sobe ao palco depois do carnaval

Foto/Divulgação
Ubiratan Brasil

Jornalista, crítico, produtor, Nelson Motta não estava satisfeito com o musical que escrevia, cuja produção já estava garantida pela sua filha, Joana. “O texto estava jornalístico demais, eu me preocupava em respeitar os detalhes históricos e a trama não avançava”, conta ele, que aceitou de bom grado a vinda de uma conhecida colaboradora, Patrícia Andrade. Em pouco tempo, o projeto deslanchou e se transformou em O Frenético Dancin’ Days, musical que, depois de uma temporada de sucesso no Rio, chega ao Teatro Opus, no Shopping Villa-Lobos, no dia 15. “Patrícia acertou ao inventar personagens e não se importar tanto com a veracidade.”

A preocupação de Motta se justifica, pois ele é um dos principais personagens do espetáculo – O Frenético Dancin’ Days conta a história da discoteca de mesmo nome que, durante sua curta vida de quatro meses (entre agosto e dezembro de 1976), reproduziu no Rio uma experiência de alegria e liberdade de expressão em meio a um ferrenho governo militar, que na época sufocava anseios e criatividade. “O Dancin’ Days foi uma ilha de liberdade e alegria. Estávamos já vivendo 12 anos de ditadura e precisávamos mesmo soltar as feras e cair na gandaia”, relembra Motta, que fundou a discoteca ao lado dos amigos Scarlet Moon, Leonardo Netto, Dom Pepe e Djalma Limongi, depois de aceitar o convite de um empresário para ocupar temporariamente um espaço no então novíssimo Shopping da Gávea.

Foi um tremendo sucesso – em seus quatro meses de funcionamento, o espaço reuniu famosos e anônimos, hippies e comunistas, todas as tribos com o único objetivo de celebrar a vida. Artistas como Rita Lee (ainda com o Tutti-Frutti), Raul Seixas, Gilberto Gil fizeram apresentações. A pista da boate fervia ao som de Lady Zu, Banda Black in Rio, Tim Maia, além de hits internacionais como I Love the Nightlife, You Make me Feel Might Real, We Are Family, Y.M.C.A. e Stayin’ Alive, entre outros. Mas o grande feito dos proprietários da boate foi permitir que suas garçonetes Leiloca, Sandra Pera, Lidoca, Edyr, Dhu Moraes e Regina Chaves fizessem breves apresentações durante a madrugada. Arrasaram tanto que logo abandonaram as bandejas e criaram o grupo Frenéticas.

Curiosamente, um de seus grandes hits, Dancin’ Days, foi usado como tema de uma novela do mesmo nome que a Globo exibiu em 1978 e que ajudou a consagrar a atriz Sônia Braga. “Mas o musical não tem nenhuma relação com a novela”, frisa Deborah Colker, que assina a direção-geral do espetáculo. “Nossa inspiração é apenas a boate.” Consagrada como uma das principais coreógrafas do País (no ano passado, foi premiada na Rússia com o Prix Benois de la Danse, considerado o Oscar da Dança), Deborah estreia no comando de um musical, tarefa que resistiu até aceitar.

“Para mim, era impossível levantar um espetáculo em apenas dois meses, que era o tempo que eu tinha – com minha companhia de dança, chego a trabalhar até durante um ano”, explica. Mas a coreógrafa logo cedeu ao convite, seduzida por dois detalhes: a incrível história daqueles cinco amigos e a possibilidade de fazer um musical essencialmente brasileiro. “Mais que isso, um espetáculo autoral, com personalidade e seguindo nossa tradição de misturar assuntos.”

Com isso, Deborah, que já trabalhara antes com coreografias que narravam uma história (como Tatyana e Belle), manteve seu estilo e se encarregou de dar personalidade aos personagens, municiando os movimentos de intenções e sentidos. A novidade está no seu preciso timing para a narrativa teatral, alternando dança e dramatização para manter o equilíbrio entre ficção e fato histórico. “Desde o início, mantive o desejo do Nelson e da Patrícia de não criar um espetáculo à la Broadway, mas trazer um olhar do mundo sob a nossa perspectiva.”

De fato, Motta buscava para o espetáculo a essência das chanchadas, aqueles filmes de enorme sucesso no Brasil entre as décadas de 1930 e 60 e que uniam muita música e um humor burlesco. “Oferecemos uma chanchada disco, sem nenhum compromisso com o realismo nem com a tradição da dramaturgia, mas com o descompromisso do teatro de revista, costurando tramas simples com cenas de comédia e números de música e dança”, explica. “Nosso musical não é baseado na Broadway, mas na Atlântida.”

Nesse sentido, Deborah foi rigorosa no processo de seleção do elenco – não bastava apenas cantar bem e dançar divinamente: era preciso saber atuar. Seguindo esse raciocínio, ela deixou grandes nomes de fora para unir um punhado de atores afiados e bem preparados. Para o papel de Nelson, por exemplo, a diretora buscava um intérprete que apresentasse o ecletismo do jornalista “Ele tanto lê muito como faz uma ponte com a rua, como gostar de carnaval.” Daí sua escolha recair sobre Bruno Fraga, ator dono de uma voz potente e sedutora, além de conseguir traduzir no palco toda a ternura e a energia de Nelson Motta.

“Assisti a muitos vídeos da época, buscando detalhes como forma de falar e gestos”, conta o ator, que era bombardeado por informações pelas pessoas que conhecem o jornalista há muito tempo, como Deborah e a filha dele, Joana. “No início, era desesperador, mas, aos poucos, fui trazendo o texto para mim até encontrar o jeito de ser do Nelson, sua alegria, tranquilidade, docilidade. Ele não é um personagem com características fortes como Cazuza ou Tim Maia, que já inspiraram musicais, mas tem um detalhe aqui, outro ali que o tornam especial.” A certeza do caminho certo foi dada pelo próprio Nelson Motta, que o cumprimentou logo no primeiro ensaio.

Com um elenco de 17 atores e seis bailarinos (a novidade é a presença de Érico Bras no papel antes defendido por André Ramiro), O Frenético Dancin’ Days surpreende por não contar com uma banda, mas com uma arrojada tecnologia de edição e manipulação de samples e loopings orquestradas por Alexandre Elias e que resulta em um som impressionante, capaz de acompanhar a pulsação dos atores e bailarinos. “No começo, era estranho cantar sem a presença de um maestro, mas logo nos acostumamos”, conta Fraga.

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