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Gênio inseguro

Daniel Marchi, o meu Otto Lara Resende

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Francisco Filipino

Já mencionei diversas vezes a minha admiração pelo grande Daniel Marchi, cujas sementes literárias me provocam invejas diversas. Vez ou outra, lá estou eu, diante do espelho ou, na falta de um, dialogando com a consciência: “Por que não pensei nisso?”

As personagens criadas por Marchi se revelam tão complexas, que as minhas parecem saídas de algum canto já visitado tantas e tantas vezes. E aquela maneira de juntar as palavras, as mesmas que costumo utilizar, mas com cores originais. Coisas que inebriam e que dão vontade de serem relidas assim que o ponto final chega. Ponto final? Que nada! A trama perambula por minha mente durante dias.

Há muito li O anjo pornográfico, do Ruy Castro, que retrata a vida do escritor Nelson Rodrigues. Soube que ele cultivava certo ciúme em relação ao Otto Lara Resende, dono de textos que eram, aos olhos do Nelson, impecáveis. Se ele queria ser Otto, creio que não, da mesma forma que não desejo ser Daniel Marchi, pois, assim, seria eu a perder a surpresa de mais um conto nas madrugadas.

— Edu, olha o que acabei de escrever. Veja se presta.

Essa aí é a mensagem perene que costumo receber do Daniel Marchi, que, para mim, é simplesmente o Dan. Pois é, sou um dos raros privilegiados que possui intimidade suficiente para chamá-lo assim.

Tamanha insegurança do meu amigo, confesso, me irritava. Como é que é? O cara é um gênio e fica com esse medo de não ser aprovado por seus leitores? Por falar nisso, acabo de me lembrar de dois sujeitos talentosíssimos que sofriam do mesmo mal: Elvis e Roberto Dinamite.

Bem, não sei se você sabe, mas a mãe do Dan, a Marilda, é minha madrinha. Aliás, ela e o Celso me batizaram no longínquo ano de 1967. Pois bem, a Marilda é fã do Elvis. E não uma fã comum, mas a maior fanática pelo rapazola de costeletas mais afamado do universo. E, acredite ou não, o cantor de voz rouca e aveludada sempre sofreu de pânico antes de pisar no palco, pois não sabia se o público iria ou não gostar dele.

Roberto Dinamite, o maior ídolo da história do Vasco da Gama, por sua vez, dizia que suas pernas bambeavam antes de subir o túnel do Maracanã. Que ficava assim até os minutos iniciais da partida, quando, então, se sentia confortável. Ah, por falar nisso, a Marilda é vascaína, mesmo time do José Seabra (Chefe), enquanto o Celso é Fluminense.

Outra curiosidade é que Nelson Rodrigues, para quem desconhece, era torcedor do Fluminense. Já o Otto Lara Resende era um dos mais fanáticos botafoguenses. E o que tem isso a ver? Calma, que aí vem um pouco mais de história.

Bem, o Dan nunca escondeu que é tricolor e, nas suas palavras, é um torcedor gourmet do time das Laranjeiras, diferentemente do Celso e do seu filho, o Francisco Filipino, que não conseguem assistir a uma partida do Fluzão sem aferirem a pressão a cada cinco minutos. No meu caso, nascido em Botafogo, tendo também morado em Botafogo, com a avó mais Botafogo do que qualquer coisa, é lógico que sou Botafogo, que nem o Augusto Frederico Schmidt, poeta favorito do Dan. E depois dizem que futebol e literatura não se misturam. Hum!

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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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