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UnB

Daniela, minha colega de faculdade

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Autor/Imagem:
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Não sei se foi o tempo que me fez ter outra percepção da minha relação com Daniela, que conheci no primeiro semestre de química na UnB. Eu, então com 18 anos, me senti atraída por seus cabelos escuros e anelados, os olhos de um verde que, às vezes, me faziam acreditar serem azuis, um pequeno diastema lhe conferia um sorriso franco de quem enxerga a vida com perspectiva diferente da maioria.

Devo ter feito cara de apaixonada, pois Daniela me fitou com certo interesse. Ela me esticou a mão esquerda e sorriu. Instintivamente, estiquei a direita, quando ouvi pela primeira vez sua voz rouca.

— Com a esquerda, que é mais perto do coração.

Isso quebrou o gelo e a cumprimentei com a mão mais próxima ao meu músculo cardíaco, que, naquele instante, parecia querer saltar pela boca. Daí em diante, Daniela e eu nos tornamos, aos olhos atentos, mais do que amigas. E se falassem algo, e não sou ingênua a ponto de imaginar que não o fizessem, estávamos tão envolvidas que, naqueles idos, realmente não ligávamos.

Entre provas, trabalhos em grupo e muito estudo, tivemos altos e baixos, a maior parte por conta de ciúmes tolos. E a separação, já perto da formatura, pareceu inevitável, tamanho o desgaste natural do relacionamento, que se sustentava à custa do carinho que ainda nutríamos uma pela outra. Tanto é que, apesar dos laços que ainda nos ligavam, mal nos falamos durante a entrega dos diplomas.

Nossas vidas tomaram rumos distintos nos anos seguintes. Eu quase me casei, mas consegui não sucumbir às aparências. Segui meu caminho, tive alguns romances ao longo do tempo, mas nenhum que me desse mais prazer do que as aulas de química que ministrava em duas escolas.

No ano passado, por um desses acasos da vida, reencontrei Daniela na porta da escola. Os mesmos cabelos escuros e anelados, aqueles olhos que sempre me confundiram, o diastema que ainda tornam seu sorriso tão sincero. Ela me viu e, apressadas, corremos para nos abraçar.

Daniela é mãe de uma das minhas alunas. Estava separada do marido, mas, segundo me contou, ainda continuavam amigos dentro do possível. Ela não havia seguido carreira. O diploma, porém, foi útil para se tornar servidora pública. Trocamos telefones e, dois dias depois, fomos a um café.

A conversa fluiu de modo que eu não esperava até que a troca de olhares falou mais alto, quase aos gritos. Desde então, reatamos algo que havíamos deixado para trás. Daniela prefere manter nossos encontros longe do escrutínio dos outros.

— Júlia, você acha que seremos salvas?

Atormentada, eu não soube respondê-la. Creio que essa busca espiritual compartilhada criou um vínculo de sofrimento que poucos entenderiam.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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