Maior chacina da capital
Depoimento de delegado detalha investigação
Publicado
em
O segundo dia do julgamento da maior chacina da história do Distrito Federal, ocorrido nesta terça-feira (14), consolidou-se como um marco decisivo para o desfecho do processo. O foco central das atenções foi o depoimento do delegado Ricardo Viana, que liderou as investigações à época dos crimes e forneceu um relato minucioso sobre a complexa teia de eventos que resultou na morte de dez pessoas.
A oitiva de Viana foi extensa e detalhada, iniciando-se por volta das 10h e estendendo-se até o final da tarde. Durante quase sete horas, o delegado explicou ao júri e aos magistrados a metodologia utilizada pela Polícia Civil para conectar os fios soltos de um crime que chocou a capital federal entre o final de 2022 e o início de 2023.
A relevância do depoimento foi tamanha que este foi o único momento do dia em que os cinco réus puderam acompanhar presencialmente a fala de uma testemunha. A presença dos acusados no plenário trouxe uma carga de tensão adicional ao tribunal, enquanto o investigador descrevia os passos que levaram à identificação e prisão de cada um deles.
Ricardo Viana detalhou a motivação por trás da brutalidade: uma disputa de terras. Segundo o inquérito, o alvo principal era uma chácara de 5,2 hectares localizada na região do Paranoá. Avaliada em aproximadamente R$ 2 milhões, a propriedade já era objeto de litígios judiciais antes mesmo de se tornar o cenário de uma tragédia familiar sem precedentes.
O delegado pontuou como a ambição pela posse do imóvel transformou uma convivência aparentemente comum em um plano de extermínio. As investigações apontaram que os criminosos agiram com o intuito de eliminar os herdeiros e possuidores da terra para garantir o controle total sobre o valioso patrimônio imobiliário.
Ao longo do dia, outras 11 testemunhas também prestaram depoimento, somando-se ao esforço da acusação em reconstruir a cronologia dos fatos. Cada relato buscou preencher lacunas sobre o desaparecimento das vítimas e o comportamento dos suspeitos nos dias que sucederam os assassinatos.
No entanto, a fala do delegado não passou sem contestações. As defesas de dois dos réus, Carlomam dos Santos Nogueira e Carlos Henrique Alves da Silva, protocolaram um pedido de reinquirição de Ricardo Viana. Os advogados argumentam que houve contradições em pontos específicos de sua fala que demandam novos esclarecimentos.
O pedido da defesa sugere que o delegado retorne ao banco das testemunhas após a fase de interrogatório dos réus. Essa estratégia busca confrontar as versões dos acusados com os dados técnicos e testemunhais apresentados pela chefia da investigação, prolongando ainda mais o rito processual.
Os réus que figuram no processo são Gideon Batista de Menezes, Horácio Carlos Ferreira Barbosa, Carlomam dos Santos Nogueira, Fabrício Silva Canhedo e Carlos Henrique Alves da Silva. Eles respondem por uma série de crimes, incluindo homicídio qualificado, ocultação de cadáver e associação criminosa.
A expectativa para esta quarta-feira é alta, pois está previsto o início do interrogatório dos próprios réus. Será a primeira oportunidade formal para que os acusados apresentem suas versões perante o júri popular, após meses de silêncio e coleta de provas por parte do Ministério Público e da Polícia.
A chacina, ocorrida entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023, é considerada um divisor de águas na segurança pública do Distrito Federal devido à sua crueldade e planejamento. A mobilização de diversas delegacias especializadas foi necessária para localizar os corpos e desvendar o paradeiro das vítimas.
O caso comoveu a comunidade de Planaltina e do Paranoá, onde as vítimas eram conhecidas. O julgamento atual é visto por familiares e pela sociedade civil como o passo final para a aplicação da justiça em um dos episódios mais sombrios da crônica policial brasiliense.
O tribunal tem operado sob forte esquema de segurança para garantir a integridade de todos os envolvidos. O volume de provas e o número de réus fazem com que este seja um dos julgamentos mais longos e complexos dos últimos anos no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT).
Até o momento, a estratégia da acusação tem se baseado na robustez técnica do inquérito policial. O depoimento de Viana serviu para validar essa tese, reforçando a conexão entre os réus e o planejamento meticuloso das execuções motivadas pela ganância.
Com a previsão de que o julgamento se estenda pelos próximos dias, a capital aguarda o desfecho que definirá as sentenças dos cinco homens. O interrogatório desta quarta-feira poderá confirmar as teses apresentadas pela polícia ou trazer novos elementos que desafiem a compreensão atual sobre a dinâmica da maior chacina do DF.