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Brasília

Dia sim, outro também, os carteiros não param

Lúcio Flávio

Não tem jeito. Toda vez que chega alguém novo na agência dos Correios da Praça do Bicalho, em Taguatinga Norte, a piada é inevitável. “Ele é o carteiro que entregou os papiros do Mar Morto”, algum colega brinca. Não é por menos. Aos 72 anos e quase 50 de carreira, Dário Dantas é um dos profissionais da área mais antigos ainda em atividade no DF. E gosta do que faz, experiência tem de sobra. Aposentado desde 2000, nem pensa em guardar o uniforme. “Se a gente parar, trava”, ensina, com sabedoria. “Sem falar que é um dinheiro que complementa o salário do INSS”.

E, numa cidade onde os nomes de endereços são atípicos, diferentemente de todas as outras regiões do país, com letras e siglas norteando residências, logradouros e localidades, Dário Dantas, mineiro de Paracatu, até que se adaptou em tempo hábil. Chegou ao DF no final dos anos 1960, tendo sido aprovado no concurso dos Correios em 1971. “No começo, foi difícil. Na minha cidade, como em muitas outras, os endereços têm nome de gente, lugares, nomes simples… Aqui, não. Estranhei um pouco, mas fui me acostumando”, conta o carteiro, que entrou na profissão 13 anos depois de ser inaugurada em Brasília a primeira agência dos Correios e Telégrafos.

Em 1973, dois anos depois de Dário Dantas ser efetivado nos Correios do Cruzeiro Velho, a administração central da empresa pública foi definitivamente transferida para o Setor Bancário Norte (SBN). Bem ali, seis anos à frente, seria inaugurado o edifício-sede da ECT. Em 1978, foi promulgada a Lei Postal nº 6.538, que unificaria a legislação relativa aos Correios e Telégrafos. No ano seguinte, em 1979, foi criada a Escola Superior de Administração Postal (Esap). Em 1980, ali no Setor Comercial Sul, nascia o Museu Postal e Telegráfico da ECT. No espaço podem ser apreciados alguns documentos referentes à inauguração da cidade, como selos comemorativos.

Erros e intimidades
Originais, as localizações de Brasília eternizaram endereços como W3, L2, SQS, SQN, SHIS, SCS, SCN – que, como tantos outros, já estão incorporados à cultura da cidade, fixados no inconsciente dos moradores. Mesmo assim, essa familiaridade local não é suficiente para evitar confusões na vida dos carteiros. “O maior problema nosso aqui, até por essa diferença nos nomes, é que o pessoal escreve muito o endereço errado e, se errar uma letra, um número, já viu, atrapalha tudo”, explica Dário, com o respaldo de uma larga experiência no assunto.

Lotado na agência da 508 Norte, Gilvanézio Santana, mais de 20 anos de Correios, comunga da opinião do colega de profissão Dário Dantas sobre os equívocos. No seu ofício, quando se trata do DF, um detalhe pode fazer enorme diferença. “Às vezes, a pessoa troca uma letra e a carta fica rodando, sem achar o destino, então vai do esforço do carteiro em decifrar o que estar errado e conseguir encontrar o endereço certo, completar o serviço com qualidade e integridade”, diz.

Trabalho intenso
A jornada diária de um carteiro é puxada, sobretudo para um profissional na idade de Dário Dantas, com cinco décadas de estrada e muitos endereços percorridos. Num período do dia, o trabalho se resume a entregar as correspondências. No outro, é preciso fazer a triagem do que será distribuído pela cidade no dia seguinte.

Experiente, Dário Dantas flana pelas ruas com a leveza de um beija-flor, conhece todos os macetes, sinais e esquinas de Taguatinga Norte, onde faz a entrega das suas missivas, indo da Comercial às residências da QNE 1, 2 e 6. Nessas longas caminhadas bairro adentro, é comum um motorista abordá-lo pedindo ajuda para encontrar alguma localidade específica. O carteiro não titubeia.

“A gente anda muito, todo dia no mesmo lugar”, relata Dantas, que também já trabalhou em Taguatinga Sul e no Plano Piloto. “Só de Guará I e II foram 22 anos, então conheço bem os endereços, em alguns casos, ficando conhecido dos moradores que até nos chamam pelo nome.”

Ah, sim, houve sinais do futuro que esses andarilhos das mensagens perceberam ao longo dos anos. O tempo não para e não parou só para eles, mas afetou diretamente a própria ferramenta em que trabalham diariamente. “Se brincar, a garotada de hoje nem sabe o que é selo”, arrisca Gilvanézio Santana. E Dário reforça: “Hoje entregamos mais correspondências registradas, as pessoas estão mais modernas, usam mais a internet. É raro ter carta, uma ou outra”.

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