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Becas e brasões

Dinheiro da J&F deixa odor de carne podre

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Editoria de Artes/IA

Há dias em que o noticiário econômico, da Faria Lima ao Ministério da Fazenda, fazendo uma pausa o Banco Central, deixa de cheirar a papel timbrado e passa a exalar algo mais orgânico, do tipo fezes de gado. Não é metáfora gratuita, mas o registro de que quando cifras de oito dígitos atravessam escritórios que mal faturariam o cafezinho corporativo da semana, a suspeita não pede licença, entra pela porta da frente e senta-se à mesa.

O caso da J&F e sua criatura mais vistosa, a JBS, revelado na segunda, 27, pelo Estadão, tem a rara qualidade de que não é preciso esforço literário para encontrar o absurdo. Tudo começou em dezembro de 2023, quando duas gigantes do capitalismo nacional comandadas pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, despejaram 11 milhões 500 mil reais em um escritório de advocacia de Goiânia cujo faturamento mensal beira os simbólicos 9 mil reais. Menos que a conta de luz de certos gabinetes climatizados da Avenida Faria Lima.

Dirão os prudentes que “os serviços jurídicos foram prestados, há nota fiscal, há tributo recolhido”, ou seja, teoricamente, tudo em ordem. Mas, analisando a reportagem do Estadão, nota-se que é justamente aí que a coisa desordena, principalmente quando sabemos que o papel aceita tudo, inclusive aquilo que, fora dele, desafia a aritmética mais elementar da realidade.

No mesmo compasso em que o dinheiro entra, ele dança. Sai simultaneamente da conta em transferências que lembram coreografias previamente ensaiadas, onde milhões passam por mãos discretas, contas específicas e instituições que se dizem meras operadoras de fluxo. Tudo muito técnico, muito asséptico, como se cifras não tivessem cheiro, embora tenham.

Atento à circulação pouco usual da moeda, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, órgão pouco afeito a lirismos, não costuma usar desodorante sem motivo quando fala em “alto risco para lavagem de dinheiro”. Fique claro que não é adjetivo que se distribua como brinde em congresso.

Ao contrário, a história ganha contornos ainda mais interessantes quando a trilha do dinheiro cruza personagens que orbitam o poder. Não se trata de acusar, mas de observar, já que o mesmo circuito financeiro que começa no mundo das proteínas termina roçando o ambiente onde decisões ganham toga, carimbo e efeito vinculante.

Brasília, como se sabe, não é cidade, mas um sistema circulatório. É aqui onde tudo chega, tudo passa, tudo se transforma, e no meio disso, surgem as reações espontâneas, que escapam pelo telefone com a elegância de um chute na porta. A indignação, quando genuína ou ensaiada demais, costuma vir em tom alto. Isso, vale enfatizar, pode até ser compreensível, porque ninguém gosta de ver o próprio nome associado a cifras que chamam mais atenção do que explicações conseguem conter. Mas há algo no ar.

Resta, então, o essencial no que expôs o Estadão: o que é isso tudo? Seria um conjunto de coincidências contábeis? Um retrato fiel da complexidade das operações jurídicas de grandes conglomerados? Ou apenas mais um capítulo de um país onde o extraordinário virou rotina e o improvável já nem se esforça para parecer raro?

Não cabe, ainda, responder, mas fazer outras perguntas, insistir, cutucar. Porque, no fim das contas, quando o dinheiro corre rápido demais em trilhas sinuosas e pouco iluminadas, não é só o mercado que deveria prestar atenção. É o país inteiro. E, convenhamos, quando o assunto envolve bois, bancos e Brasília – de onde se avistam os limites de Goiânia -, ignorar o cheiro não costuma ser a melhor estratégia.

Os irmãos Batista foram procurados. A advogada bondosa com dinheiro, e o advogado receptor, também. Mas fez-se um silêncio sepulcral. Talvez as respostas venham quando o Coaf forçar um pouco mais a porta do mausoléu. Até lá, o espaço fica aberto para quem desejar se manifestar.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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