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Cultura

Djavan e todos os homens que vivem nele

Foto/Divulgação
Julio Maria

Havia uma pausa de três anos depois da turnê de Vidas Pra Contar, de 2015. Ali já era um show grandioso, unindo as duas pontas de um tecido que Djavan costura com leveza: a complexidade abrangente, a estranheza pop, a liberdade responsável. Conceitos que poderiam ser incompatíveis reagem complementares e desafiadores. Como músicas que poderiam ser de nicho atingem tantas pessoas? O pop não deveria andar de mãos dadas com o simplismo? Não é o que os agentes de mídia repetem tantas vezes? Aos 70 anos, Djavan implode esses conceitos quando sobe a um palco para mostrar o espetáculo baseado em Vesúvio, seu novo álbum.

Ele chega mais solto, mais entreteiner, caminhando pelo palco com agilidade, de chapéu marrom alongado na copa e óculos divertidos de aros grossos brancos. O quinteto ao lado mistura dois mundos, criando de novo a pororoca de naturezas em que ele surfa. A guitarra de João Castilho, o piano de Paulo Calasans e o teclado de Renato Fonseca são seus portos, experientes em sua linguagem, a mesma que os músicos não entendiam quando ele apareceu no Rio caído solitário da espaçonave partida das Alagoas. O baixista Arthur de Palla e o baterista Felipe Alves, mais jovens, vêm com a vibração pop quente, flutuando quando é ar, suingando quando é chão.

Seu disco novo empresta algumas das músicas da noite. A que abre é Viver é Dever, que poderia estar em qualquer outro álbum se não fosse por um alarme que soa sem fazer barulho. “Tudo vai mal, muito sal / Nada vai bem pra ninguém / Nessa pressão quem há de dar a mão / Pra que o mundo saia lá do fundo.” Mais pra frente tem Solitude, ouito protesto que fala mais pelo poder de provocar o silêncio. “Guerra vende armas, mantém cargos, destrói sonhos tudo de uma vez.”

Djavan não é um homem de rupturas. Logo depois de surgir em 1976 com A Voz, O Violão, A Música de Djavan, descoberto pelo pai de Cazuza, João Araújo, tubarão da Som Livre, ele já sabia o que queria e o que funcionava, mesmo com a desanimadora reação dos primeiros ouvintes e com conselhos do tipo, “seja um sambista!”. Alguns traumas com produtores dos anos 80 o fizeram tomar então a decisão de manter as rédeas de todos os processos de produção. Da composição aos arranjos, das letras à escolha dos músicos, tudo tem a sua assinatura. É raro vê-lo em parcerias, nas letras, no disco ou no palco. Um selo próprio, luanda Records, veio também para resolver os problemas com gravadoras.

A concentração que traz a liberdade também cobra um preço, e ele pode estar em comentários que se ouve de quem não entende muito de sua obra e o ouve com os ouvidos verdes, aqueles que trazem as informações mais valiosas para um artista: de uns tempos para cá, as músicas novas de Djavan não se parecem muito umas com as outras? Uma segunda audição mostra que não, o oceano ali é grande, mas a sensação de se ouvir canções de um mesmo disco há algum tempo pode ser sintoma de sua resistência em trabalhar sob o comando de um produtor. Alguém que o desafie, que o arranque do prumo, que o coloque na linha do tiro da reinvenção e na possibilidade do fracasso que mora no encontro com o outro.

“Eu já faço isso há anos”, pode ser sua resposta ao cantar para uma plateia quente do Credicard Hall músicas tão difusas como Cigano, Madressilva, Esquinas, que ele não mostrava havia 20 anos, e Quero Quero, que traz alguns segredos de sua mente: ser livre na primeira parte, fazer o jazz, e preparar para um refrão redentor, explosivo e sequestrador na dança, na música e no verbo. Ou quando faz a demonstração de força, seu teste nuclear, enfileirando, não nessa ordem mas também poderia ser, Se, Sina, Oceano, Lilás, Flor de Lis e tudo o que coloca a plateia na palma de sua mão em qualquer ocasião. São inesgotáveis e frutos de todos os Djavans que existem ali. Seu próximo passo poderia ser descobrir no outro os que não existem.

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