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Lago Paranoá

Do projeto da Missão Cruls à vila submersa

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Autor/Imagem:
Janaína Costa - Foto Marco Peixoto

O Lago Paranoá, cartão-postal e pulmão úmido da capital federal, é um lago artificial criado em 1959 para amenizar o clima seco do Planalto Central. A ideia, porém, é bem mais antiga: foi esboçada ainda em 1894 pela Missão Cruls, expedição que estudou a implantação da nova capital no interior do país.

No relatório entregue em 1896, Luís Cruls transcreveu análise do botânico Glaziou sobre a depressão entre os chapadões do Gama e do Paranoá. Segundo o texto, a região já havia sido um lago natural e poderia voltar a sê-lo com a construção de um dique de 500 a 600 metros de comprimento e 20 a 25 metros de altura, formando um espelho d’água navegável de 20 a 25 km por 16 a 18 km.

A concretização veio no governo de Juscelino Kubitschek. Com o represamento do Rio Paranoá em 12 de setembro de 1959, nasceu a barragem que deu origem ao lago e à usina que, na época, supria o Distrito Federal. Hoje, a geração local representa apenas 2,5% do consumo energético do DF.

O Paranoá tem 48 quilômetros quadrados de área, profundidade máxima de 38 metros e cerca de 80 quilômetros de perímetro. Ao longo da orla surgiram praias artificiais, como a “Prainha” e o “Piscinão do Lago Norte”, além de bares e restaurantes. As regiões do Lago Sul e Lago Norte ocupam as duas penínsulas formadas pelo reservatório.

Além do lazer, o lago foi pensado como instrumento climático: elevar a umidade relativa do ar em suas proximidades. O objetivo se mantém atual diante do período de seca que marca o calendário da capital entre maio e setembro.

A ocupação acelerada da bacia hidrográfica e o lançamento de esgotos sem tratamento levaram, em diferentes momentos, à eutrofização do lago. O quadro exigiu investimentos em despoluição. Desde 2000, após ações de saneamento, a pesca voltou a ser permitida e incentivada no Paranoá.

Antes do enchimento, a área abrigava a Vila Amaury, formada por operários da construção de Brasília e suas famílias. Com o fechamento das comportas, a vila foi submersa. Relatos de ex-moradores divergem: alguns afirmam que todos sabiam da inundação iminente; outros descrevem surpresa com a velocidade da água. Muitos relatam ter priorizado salvar documentos para provar sua existência.

“Quando começou a subir o Lago, muitos tiraram suas coisas. A Novacap ofereceu lotes em Taguatinga. Outros insistiram em ficar falando que o lago não ia chegar”, conta Luiz Rufino Freitas. Já o pescador Pedro Venzi lembra: “Quando as águas vieram, as pessoas corriam primeiro para salvar seus documentos”.

Por muito tempo, a Vila Amaury deixou poucos vestígios materiais, apoiada sobretudo na memória oral. Recentemente, tecnologias de georreferenciamento e mergulhadores têm registrado ruínas submersas, abrindo caminho para estudos arqueológicos da antiga ocupação.

Em 22 de maio de 2011, o lago foi cenário de uma tragédia. Um barco com licença para 90 passageiros e dois tripulantes naufragou durante um evento noturno. O Corpo de Bombeiros informou que havia pelo menos 104 pessoas a bordo. A embarcação ficou inclinada a 17 metros de profundidade e oito mortes foram confirmadas.

A fauna do Paranoá inclui aves como biguá, garças, águias-pescadoras, matracas, ananaís e marrecas-irerê. Entre os mamíferos há lontras, capivaras, cuícas-d’água, ratos-d’água, micos-estrela, gambás-de-orelha-branca e ratos-do-campo. O jacaretinga, espécie nativa, prefere áreas rasas e com vegetação e não costuma atacar humanos.

Na pesca, predominam espécies introduzidas como tilápia, tucunaré e carpa — esta última usada no controle de algas. Entre as nativas estão cará, lambari e traíra. A atividade foi retomada após a melhoria da qualidade da água.

O Distrito Federal tem mais de 50 mil embarcações registradas, a quarta maior frota náutica do país. Apesar disso, não há píeres ou marinas públicas ao longo da orla. O lago sedia práticas como canoagem, remo, iatismo, esqui aquático e mergulho. Desde 1994, recebe a Regata JK, com mais de 200 embarcações.

O Paranoá possui três pequenas ilhas. As duas maiores, Ilha do Paranoá e Ilha do Retiro, são consideradas reservas ecológicas. Outro marco arquitetônico é a Ponte Juscelino Kubitschek, a Ponte JK, que cruza o lago e integra o conjunto de cartões-postais de Brasília.

Após o processo de despoluição, 99% das águas do lago são consideradas próprias para banho. A orla concentra clubes, mansões e pontos de esportes como vela, stand up paddle e caiaque, consolidando o Paranoá como polo de lazer.

O lago também entrou na literatura recente. O premiado escritor Eduardo Cesario-Martínez publicou o conto Mistério do Lago Paranoá, em formato de folhetim, no Notibras, entre 3 e 11 de abril de 2023. Entre história, memória submersa e uso cotidiano, o Lago Paranoá segue como obra de engenharia, espaço de convivência e termômetro ambiental da capital — planejado no século 19, construído no 20 e disputado, frequentado e fiscalizado no 21.

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