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Eles não sabem o que dizem

‘Doutores’ em Direito criam guerrilha digital para tentar matar reputações

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Autor/Imagem:
Carolina Paiva - Foto Editoria de Imagens/IA

Brasília entrou oficialmente em clima eleitoral. Não apenas pelos discursos, pelas alianças improváveis ou pelos sorrisos estrategicamente distribuídos em agendas públicas. A campanha começou muito antes do calendário permitir, justamente nos bastidores da internet, onde muita gente lê mas poucos conseguem entender.

Enquanto os pré-candidatos percorrem cidades, participam de eventos e tentam construir pontes com o eleitorado, uma outra tropa já está em campo. São apoiadores remunerados que não usam bandeiras, não distribuem santinhos nem participam de caminhadas, porque operam atrás de telas, perfis anônimos, grupos fechados e redes coordenadas. Seu objetivo é destruir reputações.

A velha disputa política sempre conviveu com boatos, fofocas e ataques pessoais. A diferença é que, no passado, a mentira precisava percorrer um caminho mais longo até alcançar milhares de pessoas. Hoje, basta um celular, uma conta falsa e alguns minutos para que uma narrativa seja lançada ao espaço digital.

A política moderna descobriu, assim, a dúvida como uma arma poderosa, porque nem sempre é necessário provar que alguém é culpado de alguma coisa. Muitas vezes basta insinuar sem precisar apresentar fatos; basta sugerir. E como não é necessário convencer, basta contaminar.

Para quem costuma acompanhar o cenário político, sabe que o método é conhecido. Primeiro surge uma publicação aparentemente inocente. Em seguida aparecem comentários coordenados. Depois entram em ação perfis especializados em amplificar mensagens negativas. E quando o assunto ganha corpo, vídeos editados, montagens, recortes de falas e interpretações distorcidas começam a circular, em poucas horas a reputação construída durante décadas passa a depender da velocidade da defesa.

O mais perverso é que a vítima quase sempre chega atrasada. Enquanto a mentira corre, a verdade precisa reunir documentos, testemunhas, explicações e contexto. Porém, quando finalmente aparece, o estrago já foi feito.

Brasília, tradicional laboratório político do país, tornou-se também um campo de testes dessa nova modalidade de guerrilha. O fenômeno não distingue ideologias, já que direita, esquerda e centro utilizam estratégias semelhantes quando acreditam que o desgaste do adversário pode render dividendos eleitorais.

Os alvos são escolhidos conforme o potencial de crescimento. Quanto mais competitivo um candidato se mostra, maior a probabilidade de virar objeto de campanhas subterrâneas. Não se trata apenas de derrotar adversários, mas de impedir que eles cresçam.

A tecnologia ampliou o alcance desse mecanismo. Um exemplo são as ferramentas de inteligência artificial que permitem criar imagens, áudios e vídeos cada vez mais convincentes. Em breve, talvez não seja mais suficiente perguntar se determinada informação é verdadeira. Será necessário, sim, perguntar se ela sequer aconteceu.

O eleitor, por sua vez, transforma-se na principal vítima desse ambiente contaminado. Em vez de discutir propostas para saúde, segurança, educação, mobilidade ou desenvolvimento econômico, acaba consumindo escândalos fabricados, polêmicas artificiais e disputas que pouco têm a ver com o futuro da cidade.

O resultado é uma democracia enfraquecida, porque quando a reputação passa a ser destruída por algoritmos e não por fatos, o debate público perde qualidade. Nesse ponto, a política deixa de ser uma competição de ideias para se tornar uma competição de demolições.

A eleição de 2026 no Distrito Federal promete ser uma das mais disputadas dos últimos anos. Governistas, oposicionistas e candidatos independentes já se movimentam. Mas talvez o maior desafio não esteja nas urnas e sim nas telas. Porque, em tempos de guerra digital, o primeiro combate não acontece entre candidatos; ele sobe ao ringue entre a verdade e a manipulação. Essa é uma batalha cujo resultado afeta todos nós.

Entenderam a mensagem, excelências que se dizem doutores em Direito, ou será preciso desenhar e nominar?

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Carolina Paiva é Editora do Quadradinho em Foco

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